Júlia fazia a sua primeira semana de serviço no hospital. agora que concretizara o seu sonho, sentia um misto de temor e de entusiasmo, certa da responsabilidade que ser médica acarreta
Júlia fazia a sua primeira semana de serviço no hospital. agora que concretizara o seu sonho, sentia um misto de temor e de entusiasmo, certa da responsabilidade que ser médica acarretaTerminou a passagem do turno às 00h30. Pouco depois, no ecrã do telemóvel, sinal de mensagem de Tony. ao lê-la, olhou em redor com espanto e aflição. Leu de novo a tentar que não fosse o que temia:- Só te queria dizer adeus. agradeço toda a ajuda que me quiseste dar, mas nada vale a pena. Sê feliz! Júlia apressou-se a responder:- Olá, Tony! Estou a sair de serviço. apetece-me um chá. Vens ter comigo?- Para mim é tarde para chás. Há algum tempo que Júlia sentia Tony triste, fugidio dos amigos, desinteressado do que antes lhe dava prazer. Refugiava-se em casa e nem às mensagens de telemóvel respondia. Face aos sinais de depressão, Júlia propôs-se marcar consulta de Psicologia ou Psiquiatria. Tony ofendeu-se e afastou-se ainda mais. Júlia continuou os contactos via sms ou por mail, sempre sem resposta. Por isso, esta mensagem era tão assustadora. Que iria ele fazer?Tentou nova mensagem: – Tony, neste momento sou eu que preciso de ajuda. Preciso encontrar-me contigo. – Boa tentativa! Busca outra pessoa porque eu não sei nem posso ajudar-te. Tenho outro programa para esta noite. Em desespero por entender o risco que ele corria, ligou para o telemóvel dos pais. Silêncio. Deveriam estar a dormir. Entrou no carro e em velocidade máxima, dirigiu-se a casa de Tony. No dia seguinte podia ser tarde demais. Tocou a campainha. O quarto dos pais de Tony iluminou-se e pouco depois o pai vinha à janela. – Júlia!? Que aconteceu?- Preciso falar convosco com urgência. Daí a pouco Júlia e os pais estavam sentados na sala, eles incrédulos e aterrorizados com a perspetiva que Júlia lhes dava:- Mas Tony nunca nos disse nada!até parecia estar tranquilo. Só mostra preocupação por não estar a trabalhar, mas graças a Deus nada lhe falta. Ele é precioso para nós e ele sabe isso.como pudemos ser tão cegos?… – Senhor José, dona amélia, são questões mais profundas dentro dele. É ele que não acredita merecer o vosso amor porque está deprimido. Sempre quis poupar-vos, por isso fingia quando estava convosco. Esta noite ele pode pôr em risco a sua vida. Precisa de internamento no serviço de saúde mental para ser protegido e tratado. ainda em choque, e depois de assegurar que Tony estava no quarto e a dormir (a fingir?), estabeleceram um plano de ação. Estavam ali para tudo o que o seu filho precisasse, como sempre estiveram. Um mês depois, na visita a Tony, Júlia foi informada da alta clínica. Havia um longo percurso ainda a fazer mas o abraço que Tony lhe deu era uma afirmação de vida novamente capaz de sentir, de querer e de agir. Foi a resposta máxima que Júlia poderia receber de tão pequenina ação. O seu papel foi apenas de importar-se, mas isso fez a diferença de uma vida.