«Senhor, eu invoquei-vos e fui ouvido, ganhou ânimo a minha vida. Dar-vos-ei graças pelo vosso amor e a vossa fidelidade», rezamos no salmo responsorial de domingo
«Senhor, eu invoquei-vos e fui ouvido, ganhou ânimo a minha vida. Dar-vos-ei graças pelo vosso amor e a vossa fidelidade», rezamos no salmo responsorial de domingoÉ uma experiência que talvez tenha afetado a nossa vida mais do que uma vez. De repente parece que as coisas começavam a descarrilhar, o trabalho ou as nossas relações com os outros perdiam aquele brilho de antes, e evaporava o sentido de realização que até então nos empurrava para a frente. É uma experiência que não poupa muita gente. Grupos e movimentos, civis ou religiosos, conhecem os seus tempos áureos. Um casal que tinha problemas foi ao encontro matrimonial e de lá voltaram os dois com as coordenadas do amor bem sincronizadas e um cheiro a formosura no dia a dia. E depois, às vezes sem saberem porquê, já na vida deles não brilha o sol das andorinhas. É o que vemos acontecer no Evangelho de domingo ao pescador Simão Pedro. Tinham ele e os seus colegas trabalhado toda a noite, mas as redes continuavam a chegar vazias: o peixe abalara sabe Deus para onde. E agora lá estavam eles a consertar as redes na praia, o coração pesado pelo mal sucedido. aproxima-se dele o Mestre Jesus, que entra no barco de Pedro e lhe pede para se afastar um tantinho da praia. E de lá começa o Mestre a pregar a palavra do Reino à multidão que se aglomerava junto das águas do lago. E no fim da pregação, sintonizando com o desânimo de Pedro, diz-lhe Jesus: Simão, faz-te ao largo, e lança as redes para a pesca. Mestre, responde Pedro com um toque de aborrecimento. Toda a noite labutámos, e não apanhámos nada. Mas, se tu assim o dizes, está bem, largaremos as redes. O Mestre já era conhecido de Simão, até já lhe tinha curado a sogra um dia que ela sucumbia aos calores das febres. Lançam as redes, apanham uma tal quantidade de peixes que têm de fazer sinal aos outros colegas na praia para que os venham ajudar a levar as redes. E de repente o olhar do coração de Pedro abraça a largura inteira da situação: Ele, Simão Pedro, não merecia tal favor do Mestre, por isso, prostrado diante dele clama: Mestre, afasta-te de mim, porque sou um homem pecador. a resposta de Cristo é típica do Salvador. Não tenhas receio, Pedro. Farei de ti pescador de homens! Por vezes também Deus tem as suas coisitas. Quando a vida não nos corre a jeito, quando tudo é monotonia estrafegante ou não vemos luzes ao fundo do túnel, manda-nos ele avançar para o largo, para o pego do desconhecido onde a água é profunda e os perigos parecem maiores. Pode tal acontecer por meio de um contacto mais íntimo com Cristo na oração, uma leitura bem meditada, o reconhecermos a pobreza da nossa maneira de agir, ou simplesmente uma conversa com um amigo, e pronto! Parece que volta a paz à nossa vida, o nosso quebra-cabeças de repente vira quadro perfeito. Às vezes basta mesmo começarmos a fazer algo para os mais pobres ou os sem-nome, e já o sentido de realização começa a desabrochar no nosso íntimo. E reconhecermos a nossa pobreza humana que nos fará ricos da confiança de Deus.