Sem saberem o local para onde iriam trabalhar, vários jovens de norte a sul do país concorreram para ocupar um lugar numa equipa de voluntários, que dentro de alguns meses vai partir para uma missão em África, e viver uma experiência missionária
Sem saberem o local para onde iriam trabalhar, vários jovens de norte a sul do país concorreram para ocupar um lugar numa equipa de voluntários, que dentro de alguns meses vai partir para uma missão em África, e viver uma experiência missionáriaHá alguns meses, antes de ser conhecido o destino de uma experiência missionária de curta duração, vários jovens escreveram uma carta de motivação à equipa de coordenação nacional dos Jovens Sem Fronteiras (JSF). Todos eles queriam partir em missão. a partir desses textos, foram selecionados dez candidatos para a edição de 2013 do projeto Ponte Missionária, uma iniciativa anual dos JSF. No próximo mês de agosto, os voluntários partem para Itoculo, uma paróquia do interior da diocese de Nacala, na província de Nampula, norte de Moçambique. Caberá ao padre espiritano Pedro Fernandes, que esteve durante vários anos na missão moçambicana de Itoculo, acompanhar o grupo de voluntários.
Fátima Missionária – Quem são estes jovens que vão partir?Pedro Fernandes – Os jovens participantes são originários de diversas regiões de Portugal, de norte a sul, e têm as mais variadas ocupações profissionais, desde a economia e gestão às ciências da saúde ou à comunicação. Em comum, têm a sua fé em Jesus Cristo e a sua vontade de assumir a nossa comum vocação missionária, essencial ao nosso batismo, deste modo concreto: indo ao encontro de irmãos de outra Igreja local e de outra cultura, e dando assim testemunho da catolicidade da Igreja e da sua solidariedade e abertura a todos os povos e situações humanas.

FM – Que atividades vão desenvolver com a população local?PF – O trabalho dos nossos jovens consistirá sobretudo em integrar-se na estrutura local colaborando com a equipa missionária que está no terreno e com os responsáveis locais que nos acolherão e integrarão. Há uma necessidade grande de formação, a todos os níveis, por parte das lideranças locais. O grupo espera dar a sua contribuição a este nível. Por outro lado, uma das grandes riquezas de Moçambique é a juventude; iremos também procurar interagir com crianças e jovens, em atividades de apoio escolar e de ocupação de tempos livres.

FM – Que impacto tem uma experiência como esta na vida de um jovem?PF – O conhecimento direto de outro povo e de outra cultura, a possibilidade de colaborar e participar ativamente na missão de uma Igreja local que acolhe e integra, muda para sempre a nossa visão do mundo e a nossa sensibilidade de Igreja. Os horizontes alargam-se, afina-se a sensibilidade ao valor da diversidade, cresce o sentido da solidariedade e o sentimento de proximidade com povos que estão longe e são muito diferentes. Em rigor, uma experiência deste tipo é uma enorme oportunidade de amadurecimento da própria experiência de fé e de pertença eclesial: se quem parte dá muito de si próprio, é verdade que recebe muitíssimo também.

FM – antes de partir para Itoculo o grupo terá de fazer formação. Em que consistem as sessões?PF – Tendo em conta a exigência do projeto, é normal que a formação seja também exigente. Temos habitualmente três fins de semana em conjunto, repartidos ao longo do ano pastoral precedente. aí se reza, partilha e reflete, de modo a preparar as pessoas para o que vão viver. Os conteúdos são variados: motivação missionária; espiritualidade e teologia da missão; conhecimento básico da cultura e do povo a que se é enviado; teologia do laicado; espiritualidade espiritana; teologia da ministerialidade; etc. ao mesmo tempo, tendo em conta o programa concreto de atividades que se irão desenvolver, procura-se elaborar com detalhe os conteúdos e atividades que se irão propor no terreno, aos destinatários dos programas de formação.

FM – O projeto Ponte decorre em países de língua portuguesa e da américa do Sul. Porque escolheram este ano a localidade de Itoculo?PF – Itoculo é uma missão do interior da diocese de Nacala, no norte de Moçambique, é habitado por pessoas de etnia macua e conta com um total de 77 comunidades, distribuídas por um território vasto, onde desde há vários anos trabalha uma equipa de missionários e missionárias do Espírito Santo. a Igreja tem uma organização que assenta em grande parte no compromisso dos leigos, que se mobilizam e investem fortemente num trabalho voluntário de animação das suas comunidades. É uma região verdadeiramente missionária, onde se faz um forte investimento na saúde, na educação, na promoção social em geral e, obviamente, no trabalho evangelizador. É uma área vasta, com muitas comunidades cristãs, onde tem também havido uma presença mais ou menos constante de leigos missionários. Pelas carências e pelo potencial missionário, Itoculo afigura-se um destino onde jovens portugueses de boa vontade podem dar muito de si mesmos, ao serviço da Igreja e do povo. aliás, há uns sete anos, uma outra equipa de jovens voluntários tinha já levado a cabo um projeto semelhante, com bastante fruto.

FM – Os jovens vão estar em missão durante um mês. Quais são os objetivos que a Congregação dos Missionários do Espírito Santo pretende atingir com a iniciativa?PF – Basicamente, viver e ajudar a viver a dimensão missionária da Igreja: não estamos sozinhos, vivemos em comunhão com os irmãos e irmãs de outras comunidades cristãs que, mesmo longe, formam connosco a única Igreja de Jesus Cristo. Partir ao encontro destes irmãos e com eles dar testemunho do amor de Deus é uma grande experiência de fé e de vida cristã. Isso é muito enriquecedor para a Igreja local que recebe, mas também extremamente marcante e frutuoso para quem parte.

FM – através do projeto Ponte, muitos jovens portugueses já estiveram em missão fora de Portugal. após essa experiência, há contactos que se mantêm?PF – Sim, de facto as comunidades que receberam estes grupos missionários guardaram deles uma recordação viva: o intercâmbio e comunhão que se gerou durante o tempo que conviveram ajudou a cimentar o sentimento de comunhão, de amizade e de solidariedade para além fronteiras. Projetos de solidariedade prosseguiram em favor das antigas missões de acolhimento: muitos voluntários, conhecendo a realidade pessoalmente, mantiveram-se em contacto e comprometidos, mesmo a partir daqui, com os projetos missionários que ali se desenvolvem.

FM – Conte-nos um episódio que o tenha marcado durante os vários anos que esteve na missão moçambicana de Itoculo. PF – Trabalhei em Itoculo durante quase 13 anos, tendo chegado a Moçambique em 1996 e partido em 2009. Diria que toda a experiência de caminhada com este povo e esta Igreja foram, em si mesmos, marcantes. É uma Igreja jovem, em grande parte ainda catecumenal, cheia de irmãos e irmãs na fé que realmente se comprometem no serviço às suas comunidades. Investem muitíssimo tempo e energia na vivência pessoal da fé e na ajuda que prestam aos outros na descoberta de Jesus Cristo e no aprofundamento do seu compromisso batismal. Partilhar essa experiência com estes irmãos foi para mim um grande privilégio e uma oportunidade maravilhosa para crescer como cristão e como padre. a situação de pobreza material e de algum despojamento, em vários sentidos, longe de ter sido algo de negativo ou frustrante, foi uma grande ocasião de aprofundar o sentido do essencial e do seguimento de Cristo pobre, e de me sentir mais próximo de um povo que é chamado a lutar contra todas as formas de opressão e de pobreza injusta.