O autocarro parou para Liliana entrar. a mãe deu-lhe um beijo envergonhado e pouco usual, entregou-lhe a mala e despediu-se: – «uma hora curta, minha filha! Telefona!»
O autocarro parou para Liliana entrar. a mãe deu-lhe um beijo envergonhado e pouco usual, entregou-lhe a mala e despediu-se: – «uma hora curta, minha filha! Telefona!»Liliana sentou-se no banco reservado a grávidas. Segurava a malinha preparada com muita antecedência. Entre as amigas e as poupanças que fizera, conseguira reunir tudo o que estava escrito na lista para o bebé. Estava orgulhosa por isso e sentia-se boa mãe. Para si levava pouco, porque o que possuía não estava em condições para usar fora de casa. Saiu na paragem em frente à Maternidade. Saber que a doutora Dalila estava de serviço, dava-lhe tranquilidade mas não resolvia por completo todos os seus medos guardados em silêncio. Na receção identificou-se e entregou a carta da sua médica. – Pode aguardar. Já a chamam. Liliana sentou-se. ao lado, um casal também aguardava a sua vez. Disfarçadamente centrou neles a sua atenção. Riam-se baixinho, conversando animados. De vez em quando, o rapaz acariciava a barriga da companheira e olhavam-se nos olhos com ternura. – Dona Mariana da Silva, pode entrar – chamaram ao altifalante. O rapaz ajudou a companheira a levantar-se e ambos atravessaram a porta de acesso ao interior do serviço. À espera, sentada, Liliana ficou a meditar na sua história. Do desejo de ser mãe e na sua confiança em Luís quando prometeram um ao outro construir uma família de amor; do dia em que descobriu que Luís a abandonou; dos momentos aflitivos da sua infância quando via a mãe a ser forçada a entrar na ambulância para ser internada no hospital psiquiátrico e do dia em que levaram o pai algemado e não voltou. Viu-se ali, sozinha, olhando um casal a viver um momento como ela sonhou para si, agarrada à promessa de fazer com que a vida da sua Ritinha fosse linda desde o princípio. – a senhora Liliana Costa pode entrar. Liliana levantou-se a custo, pegou na malinha com o enxoval de Ritinha e transpôs a porta. Do outro lado, uma pessoa sorridente aguardava-a. – Olha a nossa mamã corajosa! Bem-vinda! Vamos já ver como estão estas duas grandes mulheres!Liliana sorriu, sabendo-se protegida por aquela senhora que desde que a conhecera a tratou com todo o respeito e até com carinho. as tensões desapareceram. No fim da tarde, exausta pelo parto, sentiu-se também ela abençoada, enquanto admirava com encanto o rosto sereno de Ritinha. agradecida ao céu, por ter consigo um bálsamo para muitas das suas dores. Por sentir nascer uma força que a fará galgar todas as barreiras. – Juntas vamos fazer uma vida linda, Ritinha! a mamã está aqui! – segredou em promessa comovida. E cansada, adormeceu de sorriso tranquilo e olhos humedecidos por tamanha felicidade que nem sabia existir. Era o amor!