Só a redescoberta do sentido comunitário poderá levar à descoberta de caminhos adequados para acabar com o «escândalo» do abandono dos idosos, defende Jorge Ortiga
Só a redescoberta do sentido comunitário poderá levar à descoberta de caminhos adequados para acabar com o «escândalo» do abandono dos idosos, defende Jorge OrtigaMenos teoria e mais prática cristã. Em entrevista à Fátima Missionária, a propósito do aumento do número de idosos que vivem sozinhos, o presidente da Comissão Episcopal da Pastoral Social e Mobilidade Humana, Jorge Ortiga, exorta os cristãos a redescobrirem o verdadeiro sentido de comunidade. Uma comunidade de pessoas que se conhecem, amam e ajudam. Para o arcebispo primaz de Braga, as reflexões teóricas não bastam para resolver os problemas. Fátima Missionária – O que está ou pode fazer a Igreja para ajudar os idosos a combater a solidão?JORGE ORTIG a – a Igreja é detentora dum potencial que ainda não conseguiu apresentar na sua expressão mais visível. Ninguém ignora a atividade dos seus fiéis em variadíssimas iniciativas, umas de índole religiosa e outras meramente civis. Há sempre cristãos que se comprometem por uma exigência da fé que professam e do pensamento social que a doutrina vai criando na sua inteligência para, posteriormente, agir em consonância. Há, porém, uma dimensão que é essencial para a identidade da Igreja e que ainda não deixou de ser doutrina. Sabemos que a Igreja tem a sua origem na Trindade e orienta-se para um encontro definitivo com a experiência de intimidade com Deus Pai, Filho e Espirito Santo. Daí que a sua verdadeira identidade reside em ser comunidade, onde se reconhece uma Paternidade comum e uma fraternidade Universal. Somos cristãos – ou deveríamos ser – em comunidade. Uma comunidade de pessoas que se conhecem, amam e ajudam. a distinção de qualquer outro grupo reside neste testemunho. É isto que falta à Igreja! Os cristãos continuam a caminhar no seu egoísmo, mesmo com momentos litúrgicos de intimidade com Deus e desconhecem-se no quotidiano. Desconhecem-se e esquecem-se. a solidão e os idosos, como outros problemas interligados, nunca deixarão de existir sem esta redescoberta da comunidade. Será esta a discernir caminhos adequados para acabar com este escândalo do abandono de muitas pessoas. Cristo passava pelas ruas, via e agia. Hoje os cristãos devem ter o mesmo percurso e levar os problemas que detetam à comunidade, para que ela encontre as soluções adequadas e adaptadas aos lugares. FM – Que mecanismos deviam ser criados para minimizar o problema?JO – Os mecanismos dependem do querer investir na criação de autênticas comunidades que não se fecham, mas abrem as portas das igrejas para ver o mundo. Poderia sublinhar algumas possíveis iniciativas. Creio que são muitas. acontecerão quando os cristãos experimentarem entre si o dom universal e gratuito de Deus e partirem, todos os momentos, em responsabilidade missionária ao encontro dos rostos de Cristo, que peregrinam nas ruas ou que se escondem em casas. O amor procura-os. O verdadeiro mecanismo é a caridade que se torna serviço capaz de realizar milagres desde que se intervenha descobrindo, no estilo do Samaritano, aqueles que muitos, particularmente as estruturas estatais, colocam na margem da vida. FM – Do ponto de vista da Pastoral Social que programas existem para promover o acompanhamento regular destas pessoas?JO – São variadíssimas as iniciativas orientadas para a experiência da proximidade ou de vizinhança. Creio que os diferentes movimentos irão redescobrir esta nova realidade e saberão colocar dentro das comunidades, quando elas existirem, todos quantos vivem no mesmo território. Há muita iniciativa maravilhosa que não poderei sintetizar. a título de exemplo refiro o trabalho, nem sempre reconhecido, realizado pelas Conferências Vicentinas e Equipas Sócio-Caritativas. O seu trabalho consiste em contatos diretos onde aliam a distribuição de géneros à conversa sobre as questões da vida, para ultrapassar a solidão em que muitos vivem. Idêntico serviço é realizado pelos Ministros Extraordinários da Comunhão que não se limitam a exercer um ministério. Eles são presença contínua da comunidade expressão duma pertença à mesma família. a Cáritas está a desenvolver um projeto intitulado Projeto + Próximo onde se preparam agentes de ação social paroquial para uma intervenção contínua e atenta às realidades existenciais dos membros da comunidade, nomeadamente os mais frágeis. FM – Quer deixar um comentário adicional que entenda pertinente?JO – O meu comentário adicional é que, neste momento em que se repensa a Pastoral em Portugal, se dê prioridade à comunidade com um dinamismo de missão que faz com que o amor circule dentro da comunidade (Igreja) e fora (nos ambientes variados). Quando o mundo tiver oportunidade de ver a beleza da caridade que os cristãos apresentam saberá encontrar caminhos que ainda não percorrem. Se permanecermos em reflexões teóricas nunca seremos uma autêntica alternativa aos problemas. Juntaremos ideias muito bonitas, talvez teologicamente bem elaboradas, mas o problema vai continuar.