Há muito bem por toda esta terra que já foi e, de novo, será éden de Deus. a terra que, ao conclui-la, Ele achou ser toda ela boa e bonita
Há muito bem por toda esta terra que já foi e, de novo, será éden de Deus. a terra que, ao conclui-la, Ele achou ser toda ela boa e bonitaRecordo aquela visita que, há quase meio século, fiz à capital de Espanha, com um casal português conhecido. Convidaram-me a encontrar um seu amigo que passava os dias de pé na encruzilhada de duas das maiores ruas do centro de Madrid. ao chegarmos ao pé dele, notei que usava uns óculos pretos enormes que lhe cobriam os olhos, uma boa parte do nariz e das têmperas. Depois dos meus amigos me apresentarem ao senhor, diz-me ele à queima-roupa: Olhe, houve tempo na minha vida em que eu tinha olhos e não via. agora sou cego e vejo. Dito isto, tirou os óculos e ficou à mostra um buraco grande onde antes tinham existido os olhos e a parte superior do nariz. Explicou-me que uma bala lhos levara durante a guerra civil do país vizinho. No hospital, o desespero sugeriu o suicídio. Mas a solicitude de pessoas amigas que o visitavam, infundiram-lhe coragem. Cresceu como homem e como cristão. Decidiu passar o resto da sua vida na zona de mais movimento de Madrid para dizer a toda a gente que a vida vale a pena e que no centro da nossa vida devemos vingar firmemente o trono de Deus Pai Criador, Misericórdia e amor. Impressionaram-me a alegria e a firmeza com que falou.
Vejo os onze apóstolos fechados numa sala, em Jerusalém, à espera do Espírito Prometido, acobardados por tudo o que lhes poderia acontecer. Depois explodiu nas suas mentes e nos seus corações a chama que lhes recordava e explicava como realizar as palavras do Mestre: Ireis por toda a terra pregar a Boa Nova da salvação (cf Marcos 16,15). Desde esse momento, não houve mais dúvidas no seu coração: nas encruzilhadas das ruas, pelas estradas do mundo, nas casas de particulares e nos mercados e escolas da terra passariam eles o resto das suas vidas a anunciar a conversão e a vinda do Reino de Deus à terra.
a conversão é a base, o alicerce de toda a vida, do indivíduo como das nações e da humanidade inteira. Sem conversão não há salvação, sem Espírito não há conversão. assim começara Cristo a sua proclamação ao mundo: Chegou a hora, o Reino de Deus está próximo. arrependei-vos e acreditai no evangelho (Marcos 1,15). Na Cova da Iria mesmo, a mensagem foi tal e qual: oração e penitência. Penitência quer dizer conversão. E conversão é mudar a rota do coração. É um comando de reviravolta, como o dos militares nas suas marchas. O mundo está velho. Velho de injustiças, de roubos legalizados, de imoralidade, de discriminações, de desigualdades monstras. Vastas vezes, as altas esferas da sociedade gritam e barafustam. E afinal pouco ou nada dizem. Às vezes pouco fazem em prol da sociedade, especialmente dos mais necessitados, dos anónimos. até parece que é mais importante o credo da elite do que a qualidade da vida da nação. Conversão individual, das famílias e dos grupos. Conversão das nações, do conjunto das nações. aumentam desmedidamente as armas de destruição e, simultaneamente, morrem doentes porque não há dinheiro para medicamentos que os salvem, porque diminui a vontade de mudança, de conversão. Morrem as águas dos rios, dos lagos, dos mares, mas não mudam as normas para lhes renovar a vida. Falta a conversão que o Espírito oferece. Centenas e centenas de milhões de toneladas de poluição abusiva são lançadas continuamente para a atmosfera, que já respiramos com dificuldade, mas pouco é o desejo de mudar, de encetar a conversão. Se vos não converterdes, coisas piores acontecerão, anunciou em Fátima a Mãe do re-Criador. Vivemos na sociedade do desperdício, do estrago consciente e sem consciência, ou de má consciência mesmo. Lá vamos, embalados no desfile das promessas dos bandarilheiros das altas direcções e, afinal, o que nos resta muitas vezes são esperanças que acabam por marrar de encontro a becos sem saída.
Há reacções, sãs, fiéis às verdades da Verdade, em todas as camadas da sociedade. Há sonhos em jovens, anciãos e crianças mesmo. Há gente, como o cego de Madrid, que quer mudar a direcção da corrida em direcção ao abismo do nada. Há muito bem por toda esta terra que já foi e, de novo, será Éden de Deus. a terra que, ao conclui-la, Ele achou ser toda ela boa e bonita. Gente que vive à escuta do Espírito prometido pelo Homem-Deus. Gente feita do mesmo barro que nós todos, que vive sorrindo à Promessa do que vai fazer o Espírito enviado pelo Senhor Jesus – centelhas que atearão o fogo universal da conversão que leva à salvação e à glória. Trabalho nosso e do Espírito que estabeleceu em nós e entre nós a sua morada (Cântico da Entrada da Missa de hoje), o Espírito que enche todo o universo (Sabedoria 1,7). alleluia! Louvai e cantai!