Madji, 36 anos, dentista na capital da Líbia, Tripoli, ainda tem bem presente na memória o dia em que a “centelha da revolução” chegou ao país, com as forças líbias a dispararem sobre as famílias que pediam justiça para os familiares massacrados em 1996 numa prisão para detidos políticos, impulsionadas pela Primavera Árabe, que tinha partido da vizinha Tunísia, um mês antes, e inflamado a região do Norte de África e do Médio Oriente.

Passados 10 anos, Madji mantém a ideia de que a revolução que levou ao derrube de Muammar Kadhafi “era necessária”, mas lamenta que a Líbia esteja ainda mergulhada “na guerra, na violência e na confusão”.
Após anos de impasse no país dividido em dois campos, foram conseguidos progressos políticos “tangíveis” nos últimos meses: acordou-se um cessar-fogo, registou-se uma recuperação na produção de petróleo e foi designado um primeiro-ministro interino, Abdel Hamid Dbeibah, para assegurar a transição até às eleições marcadas para dezembro.

Mas os desafios são colossais depois de 42 anos de ditadura e de uma década de violência, que se seguiu à intervenção internacional com cobertura da NATO desencadeada em março de 2011 e concluída em outubro do mesmo ano com a morte de Kadhafi, perseguido até ao seu feudo de Sirte.

O país continua minado pelas lutas de poder, a força das milícias, a presença dos mercenários estrangeiros, assim como a corrupção. As infraestruturas foram arrasadas e os serviços falham. Na anarquia, a Líbia tornou-se a placa giratória do tráfico de pessoas no continente. Dezenas de milhares de migrantes vindos da África subsaariana em busca do “El Dorado” europeu são vítimas dos traficantes e muitos morrem a tentar atravessar o Mediterrâneo.

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