Miguel Guimarães - Bastonário da Ordem dos Médicos

Vivemos tempos difíceis, tempos diferentes e para os quais ninguém estava preparado. As esperanças e projetos que tínhamos para 2020 rapidamente foram desviados para uma pandemia com origem num novo coronavírus, que ninguém conhecia e que em poucos dias passou a ser o centro de todas as nossas atenções e esforços. A crise que vivemos trouxe pressões humanas, económicas, sociais, psicológicas e, naturalmente, sobre os serviços de saúde. Os médicos, enfermeiros, farmacêuticos, técnicos superiores de diagnóstico e terapêutica, assistentes operacionais, secretários clínicos, foram catapultados para as aberturas de telejornais e capas de jornais – como heróis com rostos dissimulados pelas máscaras, mas a quem confiamos as nossas vidas.

Salvar vidas foi e sempre será a nossa missão. O nosso propósito de vida. Fazemos o que sempre fizemos, ainda que agora com mais reconhecimento público, reforçando-se a ideia de que uma sociedade humana, generosa e que se preocupa com os seus não pode deixar de investir nos serviços de saúde e nos cuidadores de todos nós. Numa das suas recentes orações, o Papa Francisco lembrou “os médicos, enfermeiros, freiras e padres”, que morreram “como soldados que deram a vida por amor” no combate à Covid-19. Todos os que estão na linha da frente são soldados do amor, alguém que coloca o seu saber ao serviço do próximo, mesmo que isso implique ficar longe das famílias. Nunca os vamos esquecer.

A pandemia está longe de ser ultrapassada em Portugal, apesar de os discursos caminharem no sentido de uma (nova) normalidade. É verdade que o país se conseguiu adaptar e organizar para combater este inimigo invisível, com resultados positivos – ainda que seja excessivo dizer que vai ficar tudo bem, com vidas humanas que nunca recuperaremos. Tem-se começado a falar no “milagre de Portugal”, no que nos tem permitido vencer algumas batalhas. O nosso milagre são as pessoas, são os profissionais de saúde e todos aqueles que cuidam de nós, bombeiros, forças de segurança, autoridades judiciárias, militares, cuidadores… Mas o milagre de Portugal são também os portugueses que souberam, numa atitude humanista e solidária, antecipar e ajustar-se a uma nova vida.

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