Tumani Kombe é um promotor de saúde da Tanzânia que trabalha com os Médicos Sem Fronteiras (MSF) no campo de refugiados de Nduta, no noroeste do país, local onde a organização humanitária é a única prestadora de cuidados de saúde para cerca 75 mil pessoas refugiadas do Burundi.

De acordo com o promotor de saúde tanzaniano “todos os dias, as enfermarias do hospital do campo de refugiados estão lotadas de pacientes em tratamento para a tuberculose, diabetes, doenças cardiovasculares, saúde mental e muito mais”. Tumani Kombe lembra que estes são “problemas de saúde graves” que “não vão desaparecer só porque o novo coronavírus está cada vez mais perto do campo”.

Perante cerca de 75 mil burundianos, distribuídos por 30 quilómetros quadrados de “terra lamacenta”, onde há “abrigos feitos de tijolos de barro e lonas plásticas”, oferece-se “educação sanitária, desde tratamento para diarreia e malária, até atendimento pré-natal, HIV e muito mais”.

A “rápida propagação da Covid-19 na Tanzânia e em toda a África”, faz com que atualmente Tumani Kombe se encontre a fazer a divulgação de medidas de proteção, junto da população, com o propósito de evitar um possível surto da Covid-19 no campo de Nduta. “Com o potencial surto de Covid-19, também educamos as famílias sobre melhores práticas de higiene, distanciamento físico e explicamos como evitar a propagação do vírus”, refere o responsável.

“O nosso trabalho aqui, educando e sensibilizando as pessoas, é muito importante, pois pode haver vários tipos de rumores a circular no campo. (…) Uma das várias responsabilidades que temos como promotores de saúde dos MSF é visitar os abrigos das pessoas, um por um, e combater os mitos que cercam a Covid-19 e sensibilizar a comunidade sobre medidas preventivas reais e boas práticas de higiene”, explica Kombe, adiantando que muitas das normas para conter a doença não têm capacidade para ser colocadas em prática num local como aquele.

“Existem certas orientações que são, simplesmente, impossíveis de serem seguidas pela comunidade. O luxo do distanciamento social promovido vigorosamente e desfrutado por muitas sociedades não é viável no campo de refugiados de Nduta. Em média, cinco a sete pessoas compartilham um pequeno abrigo feito de tijolos de barro com um telhado de metal ou plástico. As pessoas vivem em condições apertadas e invariavelmente dormem no chão. Se alguém tiver os sintomas, como pode se isolar aqui?”, questiona o promotor de saúde, apresentado um exemplo das preocupações das pessoas refugiadas.

“Uma paciente, uma jovem de 19 anos de idade que deu à luz recentemente, disse que estava preocupada com um possível surto no campo. Ela perguntou como pode cumprir as medidas preventivas quando falta sabão, quando há somente um ponto de distribuição de água para até 300 abrigos e apenas três pontos de distribuição de alimentos para todo o acampamento”, exemplificou o responsável. “A realidade é que é praticamente impossível aderir às medidas preventivas necessárias para garantir que as pessoas estejam protegidas da Covid-19”, lamentou.

Kombe alerta ainda para a fragilidade de muitos dos residentes no campo. “O que é ainda mais preocupante é que muitos dos nossos pacientes são extremamente vulneráveis, com condições de saúde subjacentes, como hipertensão, HIV ou diabetes. Perante estes factos, bem como da falta de isolamento, de testes e de capacidade de tratamento na região, que é uma das mais pobres da Tanzânia, fica claro que um surto de Covid-19 aqui pode ser esmagador para o nosso hospital e devastador para a comunidade”, refere o profissional, admitindo as suas preocupações sobre a evolução da doença.

“Enquanto observo a Covid-19 a espalhar-se pelo meu país, aproximando-se cada vez mais do campo, estou preocupado. As nossas equipas estão a trabalhar incansavelmente para se prepararem para a bomba-relógio. Não há muito que podemos fazer. É preciso que os refugiados e a comunidade anfitriã recebam mais apoio urgentemente, e eles precisam disso agora”, apela o promotor de saúde.

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