Farmacêutica alemã vende um medicamento contra o cancro que custa uma fortuna para quase todos os indianos menos os magnatas. O governo avançou para a fabricação de genéricos
Farmacêutica alemã vende um medicamento contra o cancro que custa uma fortuna para quase todos os indianos menos os magnatas. O governo avançou para a fabricação de genéricosO governo indiano decidiu autorizar uma empresa nacional a fabricar um genérico que custa 30 vezes menos. Mas na guerra de interesses entre o valor das patentes e o da saúde pública ganhou este último. a Bayer promete lutar contra a decisão. Mukesh ambani, milionário da petroquímica e de mil e um outros negócios, até pode estar entre os 25 mais ricos do mundo na lista da Forbes’, mas ao lado desse rosto de uma Índia de sucesso vive uma multidão de pobres, ainda boa parte dos 1200 milhões de habitantes. E foi a pensar nessa massa humana que as autoridades indianas decidiram agora quebrar a lei das patentes e permitir que um medicamento contra o cancro da alemã Bayer, vendido a preços altíssimos, passasse a ser fabricado como um genérico pela Natco, uma firma nacional. Convertendo as rúpias em moeda europeia, o Nexavar passa de 4000 euros por um tratamento mensal para 125 euros na versão genérico. Este último valor ainda é caro para muitos indianos, aqueles que ganham umas rúpias por dia a carregar pedras nas obras ou a cavar os campos, mas o anterior era uma fortuna. aliás, a própria Forbes’ fez questão de alertar para o escandaloso preço, fazendo uma comparação com os Estados Unidos. assim, e tendo em conta que por ano um tratamento com o Nexavar custa 41 vezes o rendimento médio de um indiano, seria como cobrar 1,6 milhões de dólares a um americano. E transpondo o raciocínio para Portugal, equivale a pagar mais de meio milhão de euros por ano para não se morrer de cancro. Em termos reais, o preço do medicamento da Bayer é mais caro nos Estados Unidos e na Europa que no Terceiro Mundo. Considerado muito eficaz no combate ao cancro do rim e do fígado, o Nexavar é um dos grandes sucessos da Bayer, a quarta maior farmacêutica mundial. E por isso, convém olhar também para o lado da empresa alemã. a sua posição é clara: as investigações médicas são muito dispendiosas e é preciso premiar o esforço dos cientistas. além disso, como espécie de regra do setor, só uma em cada dez apostas de pesquisa resultam em medicamentos com potencial para serem colocados no mercado. Logo, esses medicamentos bem sucedidos têm de ser caros. a fórmula tem funcionado, com a indústria farmacêutica a oferecer grandes avanços à humanidade, enquanto ao mesmo tempo faz negócio no valor de 500 mil milhões de euros anuais, com destaque para a americana Pfizer, a número um mundial. a própria Bayer, fundada no século XIX e hoje baseada em Leverkusen, teve em 2012 lucros na ordem dos 2,4 mil milhões de euros. a favor da Bayer jogam vários medicamentos de sucesso, com o mais famoso a ser a aspirina, comercializada pela empresa há mais de um século. Contudo, se as patentes visam proteger quem investiu em investigação, também existem algumas situações excecionais admitidas pela própria Organização Mundial do Comércio, como a possibilidade de autorizar cópias baratas se um medicamento de marca não chegar ao mercado de dado país ou tiver um preço desproporcionado para a população. É este último argumento que foi decisivo na Índia em relação ao Nexavar, como antes tinha sido invocado pela África do Sul para fabricar antirretrovirais a baixo preço para combater o HIV. Polémicas junto dos governos e lutas em tribunal fazem parte do quotidiano das farmacêuticas. Que o digam a suíça Novartis, também com um medicamento contra o cancro a ser questionado pelas autoridades indianas, ou a britânica Glaxo, forçada no ano passado pela Justiça dos Estados Unidos a pagar 2,3 mil milhões de dólares por marketing abusivo. Outra das acusações sistemáticas contra as gigantes da farmacêutica é o chamado evergreening’, pequenas inovações feitas a um medicamento de sucesso para assim obter o prolongamento da patente. a decisão indiana de autorizar a visão genérica do Nexavar salvará milhares de vidas. E a Organização Mundial de Saúde, embora reconhecendo o contributo das farmacêuticas paraa erradicação de muitas doenças, costuma tomar partido pelas populações contra o interesse da indústria. até porque os lucros são imensos, assim como os gastos em marketing e, portanto, muitos preços poderiam ser mais baixos sem pôr em causa o financiamento da investigação. Nos países ricos, onde existem bons sistemas públicos de saúde e os seguros médicos, a questão do preço dos medicamentos é menos polémica. E tendo em conta que 85 por cento do negócio das farmacêuticas continua a ser feito na américa, Europa, Japão e Oceânia, são muitas as vozes que defendem que as farmacêuticas podem adaptar de forma radical a sua política de preços aos países mais pobres, como é o caso da Índia. Neste permanente braço de ferro entre a saúde das populações e o interesse das gigantes do medicamento, os países emergentes podem ainda apresentar trunfos com grande possibilidade de serem entendidos na lógica mais empresarial. a revista Economist’ calcula que com tanta população, tantas doenças e tanta nova classe média, a Índia verá o seu consumo de medicamentos passar de nove para 57 mil milhões de euros anuais numa década. Nem a Bayer nem qualquer outra farmacêutica quererá ficar fora, entregando o mercado a empresas nacionais. Por isso, o entendimento entre o Estado e a indústria é o caminho mais óbvio para pacificar a polémica. E não esquecer que as autoridades indianas ordenaram à Natco que pague sete por cento em direitos à Bayer.