Este mês fomos ouvir a irmã Graça Lameiro, missionária da Consolata, que está a trabalhar com os povos indígenas na selva amazónica e tem feito do rio a sua segunda casa

Este mês fomos ouvir a irmã Graça Lameiro, missionária da Consolata, que está a trabalhar com os povos indígenas na selva amazónica e tem feito do rio a sua segunda casa
aos 46 anos, a religiosa, natural de Pousos, concelho de Leiria, afirma com grande alegria que consagrou toda a sua vida à Missão. Chegou à Colômbia em 1995, para realizar o noviciado que terminou em 1998. Regressou oito anos depois, e tem vindo a acompanhar, de alma e coração, as comunidades indígenas situadas no sul da Colômbia e no Peru, na selva amazónica. O rio é a sua segunda casa. Quem a conhece não se deixa enganar pela sua baixa estatura, pois com uma força incrível e uma fé contagiante tem testemunhado a felicidade de uma vida preenchida pelo sim a Deus e o amor ao próximo. Fátima Missionária Explique-nos o que é isso da opção pelos indígenas dentro da vida missionária. Qual é o seu trabalho na selva amazónica? Graça Lameiro Quando em 2008 as irmãs missionárias da Consolata abriram uma nova missão no sul de Colômbia, em Puerto Leguízamo, tinham como finalidade específica acompanhar as comunidades indígenas que se encontram nesse território. Eles constituem a população mais antiga do continente e essa já seria razão suficiente para serem respeitados e não atropelados ou marginalizados e até ignorados. Os donos e guardiões da nossa rica e bela amazónia são hoje pessoas pobres, que lutam por defender os seus direitos, a sua terra e a própria vida. a opção pastoral pelos povos indígenas, na minha opinião, é aprender a caminhar ao seu ritmo, vivendo o Evangelho; é saber acolher a riqueza da sua cultura, sabedoria e espiritualidade e reconhecer neles o rosto de Deus que se revela em cada povo; é celebrar juntos a vida, a terra, a água, a luz e denunciar a opressão, a exploração, a violação de direitos; é viver um diálogo intercultural e de espiritualidades a fim de fortalecer a vida integral de cada comunidade e cada pessoa para que todos tenham vida em abundância. a opção é a de viver a pedagogia de João Batista, que prepara o terreno, mas sabe evaporar-se quando é hora. FM O que aprendeu de mais valioso com a cultura indígena? E como aplica isso na sua vida?GL a simplicidade. Cada dia aprendo algo novo e de valioso. São muitos os valores que vou descobrindo nos meus irmãos indígenas e na sua cultura, mas de facto, para mim, a simplicidade é algo muito forte que admiro e gostaria de saber viver do mesmo modo que eles. a simplicidade que contemplo no seu viver diário permite relativizar muito a nossa existência, tornando-nos menos complicadas e problemáticas. Juntamente com a simplicidade também o valor da esperança está muito presente nas culturas indígenas. O amanhã será sempre melhor que o hoje e não há razões para desesperar. FM Quais são as maiores dificuldades desta missão? GL É o aspeto económico. É uma missão que exige uma constante mobilidade, já que este é um território totalmente fluvial, e os custos da gasolina são elevados. Infelizmente não podemos acompanhar as comunidades com a frequência que desejávamos por falta de recursos. a atenção pastoral e humana que oferecemos é condicionada pelo económico e não por outras razões e isto é muito triste. Não poder fazer mais porque não temos recursos económicos. Outra dificuldade que temos vivido é a constante mobilidade das equipas missionárias. Poucos são os missionários/as que permanecem mais de três anos aqui e esta realidade condiciona a continuidade dos processos pastorais. FM a vida dos missionários pelo rio deve ser uma aventura constante. Recorda algum episódio especial? GL É verdade, as aventuras e peripécias não faltam e essas servem para dar cor e vida à mesma missão, e impedem a rotina, que mata. Recordo-me do dia em que viajando no nosso bote de madeira vimos um belo tigre passar-nos à frente. Não sei se foi maior o susto ou a admiração. Era tão bonito. E eu que pensava que essas histórias de tigres já não existiam. FM ainda se lembra da primeira vez que visitou Soplin Vargas? GL Claro que sim. Foi no dia 16 de fevereiro de 2008. E fiquei com uma linda impressão, pois parecia-me um pueblito tranquilo, de muita paz e aparentemente bem organizado. FM Como tem sido a relação com o povo de Soplin e com os indígenas peruanos em geral? GL a relação com os meus irmãos peruanos tem sido muito boa. Na verdade, para mim visitar uma comunidade peruana ou colombiana não tem diferença. Por exemplo, visitar uma comunidade de Quichuas na Colômbia ou no Peru é praticamente o mesmo. Estas comunidades transcendem as arbitrárias fronteiras políticas, pois no fundo existe uma continuidade cultural e territorial. Mais do que serem peruanas, colombianas ou equatorianas, são comunidades indígenas amazónicas que têm em comum um idioma, uma cultura, uma alimentação, uma espiritualidade. Visitar uma comunidade peruana é visitar uma comunidade irmã com a qual celebro a vida e a fé, com a qual partilho sonhos e desafios e algumas vezes choro problemas e dificuldades. FM Porque é que vale a pena ser missionária neste lado do mundo? GL Para mim, vale a pena ser missionária aqui como em qualquer outra parte do mundo. Hoje, para mim, é aqui que vale a pena viver a minha vida como mulher consagrada missionária, pois para aqui fui enviada e não vim por eleição pessoal. Sinto que é um privilégio pelo qual devo agradecer cada dia ao Senhor, o poder partilhar a minha existência e a minha fé com estes irmãos. aqui é onde me sinto chamada a ser um pequeno tijolo na construção da Igreja que é Corpo de Cristo; aqui é onde meço a minha fé e a minha entrega gratuita ao Senhor amando e servindo cada pessoa com a qual peregrino.