Professor universitário e figura de topo na sociedade moçambicana, Brazão Mazula visitou recentemente o líder da RENaMO nas matas da Gorongosa. O encontro deixou-o convencido que é possível continuar a manter a paz em Moçambique
Professor universitário e figura de topo na sociedade moçambicana, Brazão Mazula visitou recentemente o líder da RENaMO nas matas da Gorongosa. O encontro deixou-o convencido que é possível continuar a manter a paz em MoçambiqueBrazão Mazula, 68 anos, ex-presidente da Comissão Nacional de Eleições de Moçambique e antigo reitor da Universidade Eduardo Mondlane (Maputo), está em Portugal, a convite dos Missionários da Consolata, para uma série de conferências relacionadas com o papel dos leigos na reconstrução da Igreja e o lançamento do livro Véu de morte numa noite de luar, da autoria do padre Diamantino antunes. Em entrevista à Fátima Missionária, manifesta-se esperançado na manutenção da paz no país, apesar do clima de tensão entre oposição e governo. E caracteriza Moçambique como uma nação sorridente, com um futuro promissor pela frente. Fátima Missionária – Que olhar nos vem trazer de Moçambique? Brazão Mazula – O olhar de um Moçambique novo, um Moçambique diferente, que é hoje um país sorridente com a paz. É um país que está a enveredar por um desenvolvimento económico e é uma alegre surpresa ver como está a despontar para os grandes recursos minerais, para os hidrocarbonetos, para a agricultura e o mar. E isso alimenta em todos nós uma grande esperança de sermos mais felizes. FM Mas recentemente os bispos de Moçambique manifestaram-se preocupados com o clima de ansiedade política e económica que se vive no país e pela situação de pobreza que afeta grande parte da população BM O comunicado da Conferência Episcopal é positivo. No entanto, a Igreja chama a atenção para os perigos que podem surgir ou que podem constituir um entrave ao desenvolvimento harmonioso e integral. É esse o papel da Igreja, ser a consciência histórica de uma sociedade e inclusivamente da governação do país, na chamada de atenção para as disparidades, assimetrias e desigualdades económicas, para que haja igualdade de oportunidade no acesso aos recursos económicos e sociais. Mas isso, no meu entender, não pinta o país a tinta preta. FM Com as eleições autárquicas, legislativas e presidenciais à porta, como estão as relações entre a RENaMO (Resistência Nacional Moçambicana) e o partido do governo, a FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique)?BM São relações que sempre foram delicadas. Temos que entender que, historicamente, eles foram inimigos de sangue, lutaram, guerrearam, bateram-se, mataram-se mas, mais que isso criaram uma mente militar. O desafio é tornar a mente limpa, desbarbarizar as mentes’. Infelizmente nem sempre a mente humana se desfaz de um momento para o outro. Tem que haver um esforço para nunca resolver os conflitos com armas, sempre com o diálogo. Neste momento o governo está em diálogo com a RENaMO. Eu próprio estive há uma semana com o senhor [afonso] Dhlakama, em Gorongosa, para poder perceber a situação, enquanto sociedade civil, e fazer o apelo para que o diálogo prevaleça. FM O regresso do líder da RENaMO à Gorongosa, antiga base militar do movimento, é preocupante? BM Sim. E não se deve minimizar. Essa foi também uma das razões pela qual fui à Gorongosa, para perceber um pouco o que se passa. Mas o presidente Dhlakama enfatizou que das mãos dele, que assinou o acordo de paz com o presidente Chissano, nunca dará ordens para iniciar a guerra. Está em Gorongosa como uma estratégia de pressão sobre problemas que ele apresentou ao governo. FM Teme um regresso às armas? BM Não. acredito na boa vontade dos homens, mas devemos fazer todos os esforços para que as coisas aconteçam pelo bem. FM Nas conferências em que vai participar a Igreja em Moçambique é apontada como modelo no que se refere à participação dos leigos. Esse pode ser um bom exemplo a seguir na nova evangelização? BM Sei que há problemas de vocação na Europa, que há problemas com o afastar da Igreja e da fé cristã, que a própria Igreja e o cristianismo já começam a ser contestados. Mas estamos a viver uma época de globalização que tem os seus efeitos positivos e negativos. Em Moçambique, a grande força da Igreja sempre esteve nos leigos. FM Sendo um homem de fé, profundamente cristão, como encara o avanço do islamismo em África? BM O islamismo está a avançar a grande velocidade, talvez pela facilidade dos seus valores. Mas também cresce porque além dos valores é, ao mesmo tempo, religião, economia e desenvolvimento. E tem aquela questão de que quem é rico pode construir a sua mesquita. Então, a mesquita está ligada à pessoa que tem posses e há uma multiplicação de mesquitas. No Islão basta alguém zangar-se com outro e cria logo a sua mesquita. Tal não acontece com o cristianismo que tem o dom da reconciliação. FM Qual a importância do trabalho dos missionários em geral, e dos missionários da Consolata em particular, no desenvolvimento de Moçambique? BM É muito grande. Eu fui aluno da Consolata, tal como três dos reitores das maiores universidades de Moçambique. Queria agradecer e encorajar [o Instituto] para que continue com este espírito de servir o mundo inteiro e, particularmente, Moçambique e África.