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O Miguel inspira!
Texto Opinião | Albino Brás | 10/08/2019 | 11:25
Miguel entrou na agenda mediática e levou a sociedade a debater a criminalização da solidariedade. O crime cometido? Uma ação humanitária: o resgate de cerca de 14 mil migrantes em perigo eminente de afogamento e morte
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Miguel Duarte, agora com 26 anos, voluntariou-se há dois anos para resgatar refugiados no Mediterrâneo. Fê-lo a bordo da embarcação Iuventa, com mais nove voluntários, integrados na organização não governamental (ONG) alemã Jugend Rettet. Enfrenta agora as autoridades italianas, que o acusam de auxílio à imigração ilegal, arriscando uma pena de prisão de até 20 anos. O jovem português, da Azambuja, participou em quatro missões (cada uma com uma duração de três semanas).

Miguel entrou na agenda mediática e levou a sociedade a debater a criminalização da solidariedade. O crime cometido? Uma ação humanitária: o resgate de cerca de 14 mil migrantes em perigo eminente de afogamento e morte. Ele surpreende-nos pelo grau de compromisso de um jovem que arrisca a própria vida e agora é acusado por salvar vidas. Ele mesmo deu a conhecer o seu caso, pediu ajuda e ganhou a solidariedade dos portugueses, e não só.

Enquanto isso, vemos o dedo acusador, Matteo Salvini, político populista, católico confesso, que empunha nas mãos um terço mostrado em comícios repletos de apoiantes; gente que acredita que salvar vidas em perigo é ilegal. Não, não é! Não o fazer é imoral. E é antievangélico alguém dizer-se católico e deixar morrer migrantes no mar, ao impedir barcos de atracarem em porto seguro.

Aluno de doutoramento em Matemática do Instituto Superior Técnico, em Lisboa, Miguel faz parte de uma estirpe de jovens que dá esperança e nos leva a acreditar no ser humano. Ele baralha as equações dos que maquinam sistemas racistas, xenófobos, de exclusão e de morte. Faz acontecer. Faz a diferença.

Olhando para o Miguel, para a sua figura despojada, autêntica, genuína, quase nos sentimos envergonhados do grito que ainda silenciamos, da profecia que não realizamos, da bondade que omitimos. Nos 50 anos da chegada do homem à lua, que assinalamos este ano, vale a pena perguntar-nos pelo sentido das nossas buscas, dos nossos esforços e sacrifícios. O que nos move e motiva?

Ao pisar a lua, Neil Armstrong terá dito: «Este é um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a humanidade». Mas também já foi dito que parece mais fácil chegar à lua que ao coração do irmão. Miguel, define as prioridades e dá um ´salto gigantesco de humanidade´. O verão é um tempo propício para o voluntariado jovem. Ser voluntário é encontrar-se com o outro, transformando e resgatando vidas. O Miguel inspira!
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