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Opinião
O rosto do outro como expressão da dignidade do homem
Texto Opinião | Vicente Sacramento Coelho | 24/06/2019 | 15:07
Que esperanças podemos dar aos mais pobres e aos migrantes, quando as próprias sociedades desenvolvidas não são capazes de lhes oferecer a perspetiva de um futuro melhor?
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Atualmente, a humanidade vive uma viragem, no que toca às grandes crises migratórias. Diariamente, os meios de comunicação social vão transmitindo imagens de vários rostos de refugiados africanos, árabes e asiáticos, vindo para a Europa ou para outros cantos do mundo. Muitos destes refugiados fogem da sua terra natal por causa de guerras, ou porque pretendem alcançar melhores condições de vida, o que nem sempre é possível.

Diante desta crise migratória, vemos um mundo que se apresenta indiferente a tantas vidas, a tantos rostos que se vão perdendo ao longo da história da humanidade. «Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e na lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco», afirma o Papa Francisco.

Esta tolerância ou aceitação crescente em relação às injustiças e às desigualdades, a nível mundial, faz-se acompanhar de uma aceitação também crescente das injustiças e das desigualdades nos nossos próprios países; e a marginalização e a xenofobia são duas das suas manifestações principais. Toda esta indiferença passa-se na «soma de muitos individualismos e egocentrismos sobrepostos, tanto à escala dos indivíduos como das nações».

Esta nova perspetiva conduziu-nos a falar do rosto humano, não no seu sentido estético ou psicológico, mas enquanto marcado pelos traços do sofrimento e da indigência. Numa outra linguagem, o rosto introduz-nos no sofrimento do outro, na humilhação e na violência sofridas pelas crianças, mulheres e homens, devido à fome, à pobreza, ao frio. Ora, voltar as costas à exigência e às necessidades dos mais pobres, desviar o olhar dos sofrimentos que os migrantes suportam devido à guerra, à pobreza de massa e das ditaduras, é acreditar que se pode edificar uma parede estanque e inultrapassável entre o mundo deles e o nosso. “Aceitar que há populações sacrificadas de antemão é sacrificar-nos a nós mesmos, condenarmo-nos à desordem, à insegurança e ao caos engendrado por um mundo onde os ricos muito ricos se barricarão, em vão, para se proteger dos pobres muito pobres». É preciso ouvirmos o grito silencioso dos que são vítimas, da guerra, da fome e da exploração.

Que esperanças podemos dar aos mais pobres e aos migrantes, quando as próprias sociedades desenvolvidas não são capazes de lhes oferecer a perspetiva de um futuro melhor? Esta problemática de indiferença para com o outro e para com as crises migratórias é «resolúvel pela descrição positiva do rosto», que acontece a partir do momento em que nós reconhecemos no rosto do outro a sua dignidade. O rosto impõe respeito, impõe dignidade e responsabilidade. Esta mesma responsabilidade está para lá do que cada um de nós faz na prática do dia a dia.

Diz Emmanuel Lévinas que «o rosto é uma presença viva, é expressão. O rosto fala. A manifestação do rosto é já discurso». O rosto é a epifania do outro para o mesmo: ««É no rosto do outro, onde se dá a sua epifania para cada um de nós», ou seja, a verdadeira essência do homem aparenta-se no rosto. No encontro ou na relação com o rosto do outro, somos interpelados a agir no sentido do bem-comum.

Dito de outra forma, «o rosto do outro pede-nos e ordena-nos», de modo que sejamos responsáveis por outrem sem esperar reciprocidade. A nossa responsabilidade é de um empenhamento total, ou seja, «temos sempre uma responsabilidade a mais do que todos os outros», de forma que ela não cessa.

Desta forma, Lévinas, na sua obra «Ética e infinito», cita Dostoievski: «Somos todos culpados de tudo e de todos perante todos, e nós mais do que os outros», de maneira que somos responsáveis até pela responsabilidade de outrem. Portanto, o desafio importante para a humanidade hoje é reconhecer e mostrar que a solução para enfrentar as crises migratórias e outras crises que vão assolando a nosso mundo, é o compromisso com os outros e com a vida humana, porque o modo de nos relacionarmos com os outros é uma boa cura para os problemas do nosso tempo.
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