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Opinião
Se quiser ouvir a minha história...
Texto Opinião | Teresa Carvalho | 27/04/2019 | 15:32
Jorge encontrara uma amiga e o orgulho de ter algo de especial, seu, para oferecer à sua família, a sua melhor herança: a sua vida
A Casa do Alpendre ia ficando repleta dos convidados para a festa do 32º aniversário de Luís, celebrado à volta de uma feijoada, especialidade da casa.
Jorge, o pai de Luís, apreciava os convívios com os amigos e familiares, sentindo-se nesses momentos um «homem poderoso», dizia ele, por ter muitos amigos.
Contudo, cada vez mais os seus amigos eram os amigos dos filhos – mas não era a mesma coisa! Como sentia a falta do João, do Pedro Grandalhão, do Alexandre, sempre prontos a recordar os tempos de folguedo e de tanto que viveram em conjunto na escola, na tropa, na animação da aldeia… Quem reparasse bem na expressão de Jorge, podia ler uma nostalgia que lhe roubava a atitude festiva que o caraterizava.
Sandra chegou e reparou em Jorge, sentado no banco do muro, em silêncio. Foi aí, ao seu lado, que escolheu instalar-se.
A conversa não demorou a ficar interessante. Jorge, com 79 anos de história, contava episódios que falavam de um tempo e de uma realidade onde se construíam lições em cada novo desafio.
Sandra, jornalista, na altura desempregada, tinha um fascínio por histórias contadas por quem as viveu. De quando em quando, estalavam gargalhadas de ambos, que contagiavam os demais. Jorge voltara à animação de outrora.
– Nunca pensou em escrever a sua história, Jorge?
– Não sei escrever bem. Mas olhe que dava mesmo um livro e bem interessante!
A tarde foi curta para tanto por contar. À despedida, Jorge atreveu-se a propor:
– Ficou tanto por lhe dizer! Se quiser ouvir a minha história…
Sandra não podia nem queria perder a oportunidade de ver ressurgir sorrisos e gargalhadas naquele senhor de quem se tornara amiga e que, porque o ouvira, passara a conhecer e admirar.
Assim, na semana seguinte, num café da vila, Sandra, munida de um bloco ao jeito de jornalista, e Jorge, revitalizado pelas memórias da sua vida, ficaram horas a revisitar as pessoas e os acontecimentos que deram cor à vida de Jorge.
Outros momentos sucederam, até Jorge considerar que a história retratava o que de interessante reunira na sua vida.
Sandra tinha material para um livro. E foi isso que fez. O seu tempo de desemprego foi preenchido com a melhor lição que até ali ouvira. E descobrira uma vocação que ditaria o seu futuro: a vocação de escritora de histórias vivas!
Do seu desafio «se quiser ouvir a minha história…», Jorge encontrara uma amiga e o orgulho de ter algo de especial, seu, para oferecer à sua família, a sua melhor herança: a sua vida, tal como a conseguia descrever, revivendo-a e entendendo-a agora, de forma diferente e pacificada.
À Sandra, Jorge deixou um imenso obrigado e a sua amizade.
Mas Sandra recebeu muito mais: a descoberta da sua nova vocação
e a aprendizagem continuada das outras histórias vivas que visitou e revitalizou.
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