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Opinião
Um desafio arrojado
Texto Opinião | Teresa Carvalho | 25/04/2019 | 16:01
Leonor saiu feliz, mesmo não sabendo o quão importante fora a pequena conversa com aquela senhora simpática da creche da Maria, que os recebia sempre de forma tão calorosa
Anabela vivia cada novo dia de trabalho com uma nostalgia crescente. Talvez no próximo mês já estivesse reformada. Se por um lado ansiava por algum descanso e maior liberdade para dar apoio aos netos, agora que a saída se aproximava, sentia a perda de tanta coisa: dos risos das crianças, dos «bom dia, Anabela», do «tchau, até amanhã», dos abraços sem porquê, das frases sábias que só se dizem quando se é criança – e tantas, tantas outras venturas que os muitos anos na creche lhe permitiram.
Talvez que, naquele fim de tarde, Leonor tivesse sentido esse misto de tristeza e saudade espelhado nos olhos de Anabela, quando, acompanhada da mãe, vieram buscar Maria, a maninha mais nova. Talvez por isso Leonor não acompanhou a mãe à sala de Maria, como habitualmente, mas deixou-se ficar ali, no hall da receção, ao lado de Anabela.
– Então, Leonor, hoje não tens mais atividades? – quis saber Anabela, a iniciar a conversa.
– Não, agora só amanhã, e é escutismo – mas isso não é bem uma atividade, é mais uma parte fixe do fim de semana.
– Gostas assim tanto de ser escuteira?
– Tanto que tenho a certeza que vou ser sempre escuteira até velhinha.
– Eu nunca fui, mas agora também já é tarde! Quem aceitaria uma pessoa com a minha idade? Só ia atrapalhar!
– Nem penses! Há lá pessoas muito mais velhas do que tu – hei, eu não estou a dizer que tu és velha, porque não és (e ambas riram divertidas com a preocupação de Leonor em assegurar a juventude de Anabela).  E depois de uma pausa, parecia sonhar um sonho para Anabela:
– Podias ser chefe, sabes? Só tens que fazer o curso e depois podes escolher um grupo. Se quiseres até podes vir para o meu grupo de Exploradores, mas também podes ir para os mais pequeninos como tu gostas, não é?
– E achas que eu daria conta do recado?
Leonor abanava afirmativamente a cabeça, olhando fixamente nos olhos de Anabela, a mostrar quão convicta estava do que afirmava.
– Sabes, Leonor, vou mesmo pensar no assunto! Parece-me que dentro de pouco tempo serás responsável por mais uma escuteira no país.
A mãe de Leonor apareceu com Maria a correr feliz em direção à porta, só travada pelo colo caloroso de Anabela que a despediu com o habitual abraço. Mas o abraço de hoje estendeu-se também a Leonor, acompanhado de um segredo ao ouvido:
– Obrigada, grande exploradora! Hoje fizeste de mim uma escuteira de futuro, e receitaste-me um bálsamo contra as minhas tristezas.
Leonor saiu feliz, mesmo não sabendo o quão importante fora a pequena conversa com aquela senhora simpática da creche da Maria, que os recebia sempre de forma tão calorosa.
Mas para Anabela, a proposta da pequena Leonor, tornou-se irrecusável e teve efeito de transformação. Leonor mostrara-lhe que ela só perderia a vitalidade e o encantamento pela vida, se ela própria decidisse fazê-lo. E Anabela estava determinada: não se permitiria perder nada do que a realizava enquanto pessoa.
Continuaria a escrever a sua história, num outro caminho, novo, com limites mais abertos.
No dia seguinte, quando pela manhã Anabela recebeu as crianças na creche, o seu olhar tinha novo brilho, o de antigamente, quando sentia que a sua vida era um dom partilhado. Leonor relembrou que há um mundo novo de dons e partilhas a ser explorado... e não o vai desperdiçar!
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