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Opinião
Na solidão, uma campainha
Texto Opinião | Teresa Carvalho | 28/04/2019 | 11:12
Aquela jovem, com olhar de esperança, parecia estar ali tão sozinha… como ela! Ainda estupefacta com aquele pedido, mas como sempre acontecia quando pediam a sua ajuda, Isilda pôs-se em movimento
Isilda e o marido sempre sonharam envelhecer juntos, recebendo os filhos e os netos em casa, fazendo da sua velhice um tempo de tranquilidade e harmonia. Mas Carlos não resistiu ao enfarte e os filhos organizaram a sua vida de família em outros países.
Com o seu sonho desfeito, numa casa com sabor a vazio, Isilda sentia-se cada vez mais só, com a sua alegria só acalentada com os telefonemas dos filhos.
Num dia triste, frio e chuvoso, uma jovem tocou a campainha de casa.
– Bom dia! É a dona Isilda? Eu sou Raquel e venho para a cidade frequentar a faculdade. Uma senhora que foi sua aluna indicou-me a sua morada e disse que talvez  aceitasse arrendar-me um espaço na sua casa.
Isilda olhou para a jovem e viu-lhe um olhar de esperança que a transportou ao tempo em que ela e os filhos, no início dos cursos, faziam o mesmo, batendo de porta em porta. Aquela jovem, com olhar de esperança, parecia estar ali tão sozinha… como ela!
Ainda estupefacta com aquele pedido, mas como sempre acontecia quando pediam a sua ajuda, Isilda pôs-se em movimento. Convidou Raquel a entrar e interessou-se por ela e pelas circunstâncias em que se encontrava.
Raquel era uma jovem lutadora, habituada a trabalhar para alcançar os objetivos a que se propunha. Com outros irmãos mais novos, a sua família não tinha recursos que lhe permitissem pagar a faculdade, mas ela não desistira do seu projeto e encontrara meios de o conseguir: trabalharia em part-time, como animadora, numa empresa de organização de festas infantis.
Raquel estava determinada em contribuir para um futuro mais suave para os irmãos, no futuro.
Isilda não teve dúvidas: asseguraria que aquela jovem generosa e lutadora seria compensada. Alojou-a num dos quartos e preparou para ambas uma refeição da sua especialidade, como já há muito não cozinhava. Enquanto se encantava com a companhia de Raquel que dava um sabor especial ao jantar, Isilda percebeu que esta jovem estava a propor-lhe muito mais do que alugar um quarto. Estava a
oferecer-lhe a oportunidade de transformar a sua vida.
Naquele dia, Isilda não teve mãos a medir. E no seguinte e nos outros também não. Havia que adaptar o espaço às necessidades de Raquel. Voltar a sentir alguém em casa, ouvir vozes, risos, portas a abrir-se, votos de «bom dia», fizera Isilda sentir-se novamente ativa, disponível, válida.
Os filhos, lá longe, viram a mudança: a mãe Isilda não se queixou das dores habituais, não falou dos dramas noticiados, nem se lembrou de lhes recordar que o pai, Carlos, falecera há precisamente seis anos e quatro meses. Agora, a mãe Isilda falava do que fizera para o almoço e do apreço da Raquel, das laranjeiras a florir, do concerto a que assistira e até dos planos para festejo do seu aniversário com amigas que não vê há muito tempo. Aquela vida que brotava de novo para a mãe Isilda, refletia-se bem longe na felicidade dos filhos.
Também Raquel encontrou mais do que um quarto. Encontrou uma senhora que, ao desistir da clausura da solidão e reinventar o calor do acolhimento, criou aconchego que lhe ofereceu a ela e à sua família, alimentando e viabilizando o seu projeto.
E a vida nova que ambas possibilitaram, abriu-se a ainda mais vida.
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