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Opinião
Afinal, próximos é melhor…
Texto Opinião | Teresa Carvalho | 31/12/2018 | 11:03
Ele era sempre tão calado, tão paciente, cuidava tanto da família que parecia que nunca se podia afastar, que estava tudo bem. Mas não estava! E eu não me calava…
– Como se atreveu a convidar a Leonor para ir à festa da prima? Matilde estava chocada. Mais, estava revoltada, amargurada, a sentir pena de si mesma, assim, sozinha, rejeitada.
Joaquim abandonara-a. Como foi capaz? Saiu de casa sem avisar previamente, nem sequer aos miúdos. Seria fingido o amor que ele sempre demonstrou pela família?
Hoje, depois de muito tempo a alimentar os sentimentos que vêm destruindo a sua alegria e a vontade de viver, decidiu falar sobre tudo isto, revoltar-se contra Joaquim, mas também confessar a sua culpa, que de forma repetida a perseguia e tentava esconder de si mesma:
– Eu acreditava que estando casada, o meu futuro e a minha família estavam garantidos. Como não percebi que aquilo que eu dizia ao Joaquim estava a afetá-lo e a afastá-lo de mim? Nunca parei para pensar que ele poderia ser infeliz!

Ele era sempre tão calado, tão paciente, cuidava tanto da família que parecia que nunca se podia afastar, que estava tudo bem. Mas não estava! E eu não me calava… Porque é que ele não me disse e não me parou? O pior é que, agora, eu não sei como viver sem ele.  Será que um dia vamos voltar ainda a ser uma família, como antes? Ou melhor: eu agora faria diferente… faria mesmo muito diferente!
Matilde falava, perguntava, respondia, resumia, perguntava novamente e respondia outra vez, numa azáfama de pensamento como se não pudesse parar até ter entendido tudo. Só precisava de ter alguém junto de si, não a aconselhar ou consolar, mas a ouvir, como se fosse um espelho onde ela se podia ver a si mesma por dentro.
– Coitados dos miúdos. Adoravam o pai – continuava Matilde. Eu não tinha o direito de proibir a Leonor de ir à festa, mas ele tem de aprender que não é assim! O pior foi ver os olhinhos esperançosos da Leonor. Ela, coitadinha, nem se atreveu a pedir, só os olhos falavam. Agora é que percebo o que estou a fazer. O que eu estou a fazer às minhas filhas.

Matilde revia os acontecimentos e percebia. Viu cacos da sua vida. Queria tanto repará-los todos. Se Joaquim ainda quisesse e acreditasse... mas uma coisa ela sabia: os filhos não seriam mais prisioneiros dos seus sentimentos feridos. Não iria impor-lhes novas dores, só para mostrar ao pai quanto poder ela tinha.
– Chega de destruição! – decidiu, finalmente, olhando convicta para quem a ouvira, atento. Matilde olhou para o relógio, agradeceu e saiu.
Depois, num espaço qualquer de uma rua da cidade, marcou o número. Joaquim atendeu. Era um começo.
A partir dali, as filhas iriam aprender o que significa o amor da mãe e o amor do pai. Nada de grades ou barreiras. Juntos, poderiam não conseguir reparar os cacos da história de um e de outro, e reinventar o sonho que um dia existiu e que durou um tempo que deveria ter sido bem mais longo, e poderia tê-lo sido, se alimentado. Mas, cada um tentaria descobrir e realizar o seu melhor!
Ainda há tempo: no tempo que têm, é tempo e lugar de apostar no amor. Foi esse o poder que criou a família e que continuam descobrindo. E, com ele, foram-se amenizando as zangas, aboliram-se os silêncios engasgados e a solidão. A vida reafirmou-se, com os contornos que a descoberta e as decisões de cada um iam permitindo.
A capacidade de amor de Matilde e de Joaquim pelos filhos, foi a alavanca que os desafiou e os abriu a novas respostas e a outros caminhos, cada um ao seu ritmo.
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