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A luta indígena, a Igreja e a sociedade de Roraima
Texto Stephen Ngari | Foto DR | 26/10/2018 | 16:21
Missionários da Consolata promoveram debate sobre a situação indígena no norte do Brasil, no âmbito das comemorações dos 70 anos de presença pastoral na Amazónia
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A Sala de cinema do Centro Amazónico de Fronteira, na Universidade Federal de Roraima, no Brasil, acolheu a semana passada um seminário organizado pelos Missionários da Consolata, no âmbito das comemorações dos 70 anos de presença na Amazónia. Foram convidados Roque Paloschi, que trabalhou na diocese de Roraima entre 2005-2015 e agora é arcebispo da arquidiocese de Porto Velho; o padre Lírio Girardi, que atuou na região de 1974-2001; Leda Martins, antropóloga, investigadora e professora na Pitzer College (EUA); Marizete de Souza, professora e coordenadora da Organização das Mulheres Indígenas de Roraima (OMIR); e Dário Vitório Kopenawa Yanomami, professor e liderança indígena. O professor Marcos Pelegrini, antropólogo e professor da universidade Federal de Roraima foi o moderador.

Na primeira parte do seminário, os participantes assistiram ao filme «Ex-Pajé», de Luiz Bolognesi, que aborda a experiência de conflito interior de um pajé que se converteu ao cristianismo. Depois houve uma partilha sobre o longa metragem onde também o irmão Carlos Zacquini, do Instituto Missionário da Consolata (IMC) partilhou os seus conflitos e as transformações que fez na terra indígena Yanomami.

Ajuda à mobilização

Na sua intervenção, Marizete de Souza recordou que os Missionários da Consolata ajudaram na mobilização da organização indígena para garantir direitos aos povos indígenas, enfrentando ameaças e conflitos na luta com os indígenas. «Hoje, o povo luta para cuidar do que Deus lhes deu, mas não para explorar ou destruir. É injusto considerar ou chamar os indígenas atrasados ou inimigos do desenvolvimento do Estado», afirmou a docente, agradecendo aos missionários e à Igreja de Roraima pela parceria na vida e na luta dos povos indígenas.

Dário Kopenawa, por sua vez, sublinhou que «as terras indígenas eram livres antes da chegada dos não indígenas» e que a evangelização sem respeitar a religião das comunidades nativas foi uma ocupação. «Os yanomami viveram sem brancos por milhões de anos. Eles têm a sua identidade, suas raízes e sua religião. Imitar a religião e a cultura dos outros é levar doenças às comunidades», referiu o professor.

Dário pediu que as pessoas respeitem a cultura yanomami e os outros povos e agradeceu aos Missionários da Consolata, por terem respeitado a sua cultura e ensinado a defender os seus direitos. «Quem vai à terra dos outros precisa conhecer a sua realidade e aprender a falar a língua local e não derrubar a cultura deles», adiantou.

A relação entre a Igreja e a sociedade roraimense esteve no centro da comunicação de Leda Martins. A antropóloga lembrou que os missionários foram acusados de comunistas (nos anos de luta 1977-2005), mas mesmo assim conseguiram organizar os indígenas para lutar pelos seus direitos o que culminou com a demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (TIRSS).

«Os indígenas deixaram de ser fonte da mão de obra barata da a elite e fazendeiros roraimenses para ser sujeitos da própria história de liberdade e crescimento. O projeto de gado ajudou os indígenas a ter o controle da terra», afirmou a investigadora, acrescentando que «a sociedade roraimense deve muito aos Missionários da Consolata, pela forma muito humana de relacionamento entre os indígenas e a sociedade que promoveram».

Nova metodologia

Para o padre Lírio Girlardi, a história dos povos indígenas começa com o projeto dos Jesuítas contra aprisionamento e venda dos indígenas nos mercados de Manaus e Pará. Depois do Concílio Vaticano II e da Conferência Latino-americana de Medellín, os missionários focaram-se mais na missão libertadora dos indígenas que já tinham suas terras invadidas pelos não índios e estavam a ser escravizados pelos fazendeiros.

Na sua opinião, as ações evangelizadoras culminaram em quatro marcos fundamentais: fundação e fortalecimento do movimento indígena; formação pastoral da liderança indígena; projetos sobre promoção humana que incluiu ferramentas de trabalho da roça, escolas com ensino de macuxi, cursos de vaqueiros, corte e costura e políticas públicas; e por último o projeto do gado, conhecido como «uma vaca por índio».

A nova metodologia pastoral, segundo o sacerdote, deu alegria aos indígenas, mas também perseguição e sofrimento. A nova compreensão teológica foi que Deus também se revela nas comunidades indígenas, e não unicamente nas fazendas. O projeto dos missionários com os indígenas recebeu o apoio de toda Igreja, e o então Papa João Paulo II também fez uma contribuição para compra de gado.

«Com os Missionários da Consolata houve uma mudança prática da evangelização na diocese, principalmente junto aos povos indígenas. Eles valorizaram o protagonismo dos indígenas por meio da formação das organizações e assembleias indígenas. Os indígenas agora não têm mais vergonha da sua língua e têm uma convicção forte de que a terra onde eles habitam é deles», concluiu o arcebispo Roque Paloschi.
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