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Quem deu mais?
Texto Opinião | Teresa Carvalho | 01/09/2018 | 16:03
Mais um pedinte, pensou. Mas, esta postura envergonhada despertou a sua atenção e entendeu uma quantidade de mensagens que só via quem quisesse mesmo ver
Josué estava à porta do supermercado. Sentado num pequeno muro, olhar no chão, cabeça cabisbaixa, como que esperando que a barreta que lhe escondia o rosto tornasse o seu corpo franzino irreconhecível para as pessoas que passavam. De mão ligeiramente estendida, quase a medo, precisando da ajuda de alguém, mas envergonhando-se de aceitar fosse o que fosse.
A sua história transportara-o até aqui, onde só esperava “restos” de generosidade, como se não se sentisse digno de muito mais, ou não quisesse esperar por algo mais, para não ter novas deceções.
Alice passou. Olhou para Josué. Mais um pedinte, pensou. Mas, esta postura envergonhada despertou a sua atenção e entendeu uma quantidade de mensagens que só via quem quisesse mesmo ver.
Aproximou-se do senhor e quis saber do que precisava.
– Bom dia, eu sou Alice. Vou ao supermercado. Precisa de alguma coisa que eu lhe possa trazer?
– Obrigada. Se pudesse ser uma sandes…
– Pode ser, sim. E para beber?
– Um sumo?!
– Com certeza, por favor aguarde.
Alice entrou no supermercado sem ter conseguido ver os olhos de Josué, desejando que aquele senhor não fosse embora antes dela sair.
Foi a vários setores e prateleiras. Imaginou o que poderia aconchegar não só o estômago mas também a alma de alguém que não tinha frigorífico nem gavetas, nem sítio protegido de insetos, ou sítio entre paredes onde pudesse comer tranquilo, protegido de olhares de soslaio.
Ao sair, o senhor Josué continuava
no murito, agora já sem mão estendida. Parece que a promessa
de Alice o poupara a alguns momentos de vergonha.
Alice aproximou-se e entregou-lhe o saco com a refeição e miminhos, contente e envaidecida por poder ser útil e «boa».
– Muito obrigada por aceitar o que lhe trago. Desejo que seja feliz!
Nesse momento, Josué não olhou para o saco. Olhou para Alice. Eram uns olhos sofridos, mas pareceram a Alice terem uma ternura que lhe encheram a alma.
– Muito obrigada, minha senhora! Que Deus lhe pague tudo o que me deu!
O que Alice sentiu foi uma enorme comoção, daquelas que mexem com toda a estrutura e levantam poeiras e poeiras acumuladas ao longo do tempo.
Aquele senhor de quem não teve a coragem de perguntar o nome, acabara de lhe oferecer tudo o que tinha, genuinamente! E o que ele tinha e lhe ofereceu era tudo o que ela precisava. Ela só lhe dera uns míseros euros, transformados em «migalhas», ainda que mimosas, mas nada se comparava ao quanto estava a receber daquele senhor e que a enchia de uma felicidade diferente, à mistura com sentimento de pequenês perante aquele senhor que de repente assumiu para ela um tamanho de detentor de uma verdade maior.
Apetecia-lhe abraçá-lo. Mas não o fez. Limitou-se a devolver-lhe o agradecimento:
– Não me agradeça. O que o senhor acaba de me dar não tem preço! Muito obrigada. Desculpe-me por eu lhe dar tão pouco…

Alice foi embora. Aquele senhor  tornou-se para ela num dos grandes professores das coisas importantes da vida.
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