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Ontem, hoje, sempre... incondicionalmente!
Texto Opinião | Teresa Carvalho | 24/06/2018 | 11:36
A dor reacendia-se, e com ela os medos que se vinham acumulando à medida que Alex crescia: medo que fosse expulso da escola, que se mantivesse ligado ao atual grupo de amigos, que magoasse alguém, que nunca chegasse a perceber o quanto era amado
Nos olhos, um tom cinzento de cansaço triste. Sulcos no rosto contam histórias difíceis, continuadas, sem fim à vista. Hoje, Lúcia e Jorge voltavam à escola respondendo a uma convocatória da diretora de turma do seu filho: Alex voltara a desrespeitar o professor e a ofender os colegas. Que fazer com mais esta queixa?

A dor reacendia-se, e com ela os medos que se vinham acumulando à medida que Alex crescia: medo que Alex fosse expulso da escola, medo que se mantivesse ligado ao atual grupo de amigos, medo que magoasse alguém, medo que nunca chegasse a perceber o quanto era amado; medo que Alex não se assumisse como principal ator da sua vida.

Lúcia e Jorge saíram da escola cabisbaixos, sem trocar palavras. Mas, os pensamentos, esses, gritavam um lamento dorido e silencioso: já não suportavam a expressão de dó ou os dedos acusatórios, ou os conselhos sem piedade que recebiam quando contavam as suas histórias a familiares ou a amigos, na esperança de ajuda.

Chegaram a casa. Alex estava no quarto, como sempre, no computador, com os headphones colocados. Com ar feliz, tinha uma «carinha de anjo», bem diferente de quando se insurgia contra a mãe exigindo a satisfação dos seus desejos, ou quando culpava o pai pelos seus fracassos, acusando-o de preferir o irmão mais velho, agora na universidade.

Donde viria esta zanga? Porquê esta insensibilidade ao sofrimento que causava nos outros? Que teriam feito de errado? Seria transtorno de personalidade, como diziam os especialistas? Não sabiam. Nem Alex sabia: só sabia do vazio que dói, da sua pressa em satisfazer os seus desejos para acalmar aquela tensão que não entendia, ou da sensação de bem-estar só encontrada no «seu mundo». Não queria pensar em amanhã, nem em esforços, nem no futuro. Sentir o gozo, agora mesmo, isso sim! Especialistas, programas, tudo foi tentado. De tudo Alex desistia. Desistir também? – perguntavam-se Lúcia e Jorge.

Sabiam que não. Não seriam capazes. Sabiam que continuariam a não conseguir dormir até que Alex entrasse em casa, mesmo que já madrugada; responderiam uma e outra vez às convocatórias dos professores, dos treinadores, ou à reclamação dos vizinhos; insistiriam com Alex nas orientações, e nos limites, mesmo que ele respondesse com os headphones nos ouvidos. Tentariam apaziguar os seus medos e ajudá-lo a forjar seguranças.

O que Lúcia e Jorge sabiam mesmo é que amá-lo-iam e cuidariam dele. Fazendo o seu melhor, alimentam a esperança. Sonham que Alex, um dia, se tornará um homem capaz de contribuir para um mundo de amor. Até lá, vão olhá-lo, senti-lo, protegê-lo e orientá-lo enquanto cresce, ainda que em atropelos e muito devagarinho, envolto na grandiosidade do amor dos pais, que é capaz de esperar, até… sempre! Entretanto, em redor, há também outras vozes, outros rostos e múltiplos desafios. Lúcia e Jorge tentam abraçar também este universo e querem ser abraçados, para, revitalizados e preenchidos, continuarem a amar, sempre, incondicionalmente!
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