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Fátima
«A ciência nunca poderá provar que Deus não existe»
Texto J.B. | Foto SNSRF | 03/05/2018 | 17:31
Cientista galardoado esteve em Fátima para procurar dar resposta à pergunta: «Fé e ciência: duas visões em confronto?»
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Henrique Leitão, Prémio Pessoa 2014, demonstrou a «ideia de incompatibilidade» entre religião e ciência, na última quarta-feira, 2 de maio, no âmbito de uma visita guiada à exposição «As cores do sol», patente no Santuário de Fátima. A intervenção do cientista partiu do modelo didático do sistema terra-sol, presente naquela mostra, e procurou dar resposta à questão «Fé e ciência: duas visões em confronto?»

 

«A cultura atual tem esta ideia de incompatibilidade entre religião e ciência como uma moda intelectual e, como todas as modas que são partilhadas pela sociedade, habitualmente isto é tido de um modo não inspecionado», disse o doutorado em física teórica, ao apresentar alguns sentidos diversos que existem por detrás dessa conceção.

 

«Há pessoas que têm um sentido vago, que as faz olhar para a ciência como algo que tem que ver com o progresso e para a religião com algo relacionado com a tradição. Para outras, o sentido é mais filosófico-teológico, que admite um problema, de ordem intelectual, entre quem adota uma posição de fé e de ciência. Há ainda quem tenha uma visão histórica, que constata um problema entre religião e ciência, comprovado pela relação entre ambas, ao longo da História. Não há, pois, maneira nenhuma de resolver estes três problemas, porque cada um deve ser analisado como tal», esclareceu o historiador.

 

Relativamente à tese de que o aumento do conhecimento através da ciência «esbate» o sentido de Deus, o docente apresentou as diferenças entre a «caricatura de Deus» feita pela atividade científica e a conceção cristã. «A transcendência de Deus, que nestas conceções é erradamente apresentada como uma espécie de categoria, está, para os cristãos, completamente de fora de quaisquer categorias espácio-temporais a que tenhamos cognitivamente acesso. Aliás, tudo o que dizemos sobre Deus está propriamente errado, porque aquilo que queremos designar não é capturável em nenhuma construção linguística ou artefacto conceptual humano, apesar de a teologia arranjar formulações que tentam, de uma maneira simbólica, aproximar a um entendimento de Deus, sempre com a noção de que Ele é incognoscível.»

 

Para o investigador, a «a ciência nunca poderá provar que Deus existe, como não poderá provar que não existe», uma vez que «há uma certa independência entre cada um dos campos». No que concerne à importância da religião para o desenvolvimento da ciência, o professor procurou dar resposta à questão: «o que é que, do ponto de vista cultural, o cristianismo nos diz acerca da natureza?»

 

«O ocidente ficou determinadíssimo pelos conteúdos culturais do cristianismo, que fez afirmações importantíssimas acerca da natureza: que ela é uma coisa boa, criada para nós; que é um objeto; que não está investida do transcendente; e que está feita para ser entendida», referiu, ao destacar o «otimismo cognitivo» introduzido pelo cristianismo no pensamento científico das sociedades ocidentais.

 

«O que culturalmente o cristianismo inseriu na Europa foi a ideia de que habitamos um mundo de coisas boas que se podem compreender e estudar. As culturas ocidentais acham que nunca pode haver um fenómeno natural que possa estar para lá da nossa compreensão e, por mais estranho que pareça, esta certeza é um derivado cultural do cristianismo», concluiu o físico, citado pelos serviços de comunicação do Santuário de Fátima.

A intervenção de Henrique Leitão foi precedida uma breve visita guiada à exposição, orientada por Marco Daniel Duarte, comissário da mostra e diretor do Museu do Santuário. Durante a visita, o responsável revelou que a exposição foi já visitada por mais de 327 mil peregrinos. A iniciativa reuniu mais de uma centena de participantes.

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