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Portugal
Entrevista
«Falta um diálogo organizado com os não-crentes»
Texto Albino Brás | Foto Ana Paula | 13/04/2018 | 17:20
O padre Tolentino Mendonça foi escolhido para pregar o retiro deste ano ao Papa Francisco e aos membros da Cúria Romana. Nesta entrevista revela-nos aspetos do seu pensamento teológico e da sua perspetiva da Igreja
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José Tolentino Mendonça ficou mundialmente conhecido por ter sido o escolhido para pregar o retiro deste ano ao Papa Francisco e aos seus colaboradores mais diretos. O convite partiu do próprio Papa. Nascido na Madeira, há 52 anos, Tolentino é padre, poeta e ensaista. Doutorado em Teologia, é vice-reitor e professor da Universidade Católica Portuguesa. Autor de numerosas obras, pelas quais recebeu vários prémios, nesta entrevista revela-nos, entre outros temas, aspetos do seu pensamento teológico e da sua perspetiva da Igreja

 

Ficou surpreendido por ter sido o escolhido para fazer as meditações para os seis dias de exercícios espirituais ao Papa Francisco?
A condição para orientar o retiro do clero, normalmente, é ser um padre. Ao começar o retiro, na saudação que fiz ao Papa, cardeais e bispos ali presentes, disse que ele escolheu este ano um quase anónimo operário da vinha do Senhor, e que dos quase 450 mil padres que há no mundo eu fui apenas mais um, alguém que ali representava a figura do padre. O facto dos meus livros estarem publicados na Itália, e ser colaborador habitual do jornal italiano Avvenire, certamente também tem feito conhecer a minha teologia, o meu pensamento, e que o nome seja conhecido.

É um padre-poeta, que trabalha as palavras, e a Palavra, de forma poética, e no diálogo fé-cultura. Algo que o diferencia e que terá influenciado a escolha do Papa…
A Igreja e o Papa Francisco têm-nos desafiado muito para isso, sobretudo na exortação apostólica `A Alegria do Evangelho´, que é o seu texto programático. O Papa diz que é preciso uma nova linguagem, novas parábolas para anunciar a fé. E penso que a poesia, a literatura, as artes, são uma fonte de novas parábolas. Acredito que a linguagem poética ajude também a refrescar a linguagem teológica.

Que sentimentos gerou em si o convite do Papa?
Foram dois, fundamentalmente. Um sentimento enorme de humildade: quando o Papa me convidou, por telefone, senti-me um grãozinho de terra. Eu só lhe disse – e fui muito verdadeiro: «Santo Padre, mas sou apenas um pobre padre». E ele respondeu: «É muito bom seres um pobre padre». Por outro lado, se ele me pediu esse serviço, tinha de oferecer e dar aquilo que podia ser capaz, e fazer o meu melhor.

Como viveu essa semana?
Durante essa semana tive um sentimento grande de humildade, porque é bonito e muito edificante ver, para mim, que a Igreja é governada também por homens santos. Vi aquelas pessoas que têm responsabilidade na Igreja a um nível tão alto passar horas de joelhos, a rezar, e isso para mim foi mesmo muito edificante. O clima com que o retiro decorreu ajudou-me muito, reforçou a minha espiritualidade, porque testemunhei as horas de oração daquelas pessoas concretas. O que colho desta experiência é um amor reforçado à Igreja, à pessoa do Santo Padre, mas à Igreja como expressão do amor de Deus e do Corpo de Cristo, que na sua humanidade a Igreja tem de facto uma natureza sobrenatural.

Como viu o Papa Francisco? E como analisa estes cinco anos de pontificado?
Vi-o muito bem, como homem orante. Ele diz – e vê-se – que está bem. Vi-o muitas vezes a caminhar pelos corredores, em silêncio, e com ar muito sereno, muito animado. Penso que são uma graça muito grande para a Igreja estes cinco anos de pontificado do Papa Francisco, e o que temos de desejar é vida longa ao Papa Francisco.

Disse nesse retiro, que «a Igreja não é uma gaiola para o Espírito Santo». Acha que a Igreja em Portugal, é missionária? Vai ao encontro dos não-crentes?
Queria dizer três coisas: a primeira é que a Igreja portuguesa ainda vive um pouco ligada a um determinado modelo que é o modelo de delegação. Por exemplo a natureza missionária da Igreja. A Igreja delega ou delegou historicamente essa componente nos missionários «ad gentes», que levavam e que exprimiam essa natureza missionária a toda a Igreja, mas ela própria não sentia no seu espaço habitual o desafio de ser missionária. Penso que hoje esse enquadramento cultural e histórico está em mudança e que a Igreja portuguesa precisa acordar para a necessidade de ser missionária «ad intra», não apenas «ad extra». Um outro aspeto que me parece muito importante é que a Igreja portuguesa construa um verdadeiro serviço de diálogo ecuménico, inter-religioso e de diálogo com os não-crentes. Não existe ainda esse serviço. Existem várias experiências, mas não de forma organizada. E penso que é urgente, sobretudo no contexto urbano. A realidade de outras religiões está muito presente, e falta um diálogo organizado com os não-crentes, uma presença, sobretudo no espaço público. E essa é uma tarefa importante para os próximos anos da Igreja portuguesa.

E o terceiro ponto…
Tem a ver com o como. A Igreja é uma espécie de laboratório de ação do Espírito Santo. Nesse sentido, tudo aquilo que vai acontecendo em pequenas iniciativas, que é um trabalho muito de abrir caminho, é muito importante, porque depois vem a organização, a sistematização pastoral. Sinto-me a fazer um trabalho entre os pioneiros em determinadas áreas. É assim no campo cultural e no diálogo com os não-crentes. As iniciativas que temos feito [na Capela do Rato, em Lisboa], são muito simples, despretensiosas, mas inauguram um estilo, uma maneira de estar, uma possibilidade de trabalho na Igreja nestas áreas.

E sente que há nos agentes eclesiais vontade de mudança?
Eu sou testemunha de que há uma vontade, há uma sede muito grande de um novo paradigma do ser eclesial, da construção da Igreja, nomeadamente na cidade – que é aquilo que conheço melhor – há um desejo muito grande de experimentar, de fazer coisas, de experimentar soluções diferentes. Penso que tem de haver uma criatividade pastoral. As iniciativas que propomos conseguem sempre uma mobilização muito grande das pessoas.

As suas propostas de renovação são bem acolhidas pelos bispos, pelas dioceses?
Eu trabalho com o bispo desta diocese [Lisboa] e estou sempre muito articulado com a Igreja naquilo que faço. Não me sinto a criar coisas alternativas, pelo contrário, sinto-me dentro, a cumprir, a obedecer, a criar o dinamismo das minhas comunidades, dentro daquilo que é a realidade da Igreja. Sinto-me mais um padre a fazer aquilo que tem de fazer.

Mas há quem aponte que os novos padres estão a voltar ao conservadorismo, ao ritual pelo ritual, ao latim.
Sou professor na Faculdade de Teologia, acompanho a formação de futuros padres do ponto de vista teológico. Falando pela minha vida de padre, o que hoje percebo, aos 50 anos, e com 25 anos de ordenação, é que um padre não se faz em cinco anos. Um padre leva muito tempo a fazer. A Igreja deve ter consciência de que um padre se constrói a longo prazo. Ela tem de encontrar formas de acompanhamento, formas de maturação nos diversos âmbitos, desde a vida espiritual até à vida intelectual, até a incompreensão do mundo. Ele precisa ser acompanhado nesta formação e cada vez mais precisa ser uma formação dilatada. Cinco anos de Seminário Maior claramente não fazem um padre. Fazem alguém que pode ser ordenado, mas depois um padre faz-se com o tempo, com a experiência, com o mergulhar na própria realidade, faz-se no acompanhamento, na abertura que em Igreja nós vivemos. Isso é que às vezes sinto que falta fazer muito. Porque vejo muitos padres em solidão. Muitos desacompanhados, sentindo-se muitas vezes isolados. E aí falta um olhar de que um padre não se faz numa forma. Um padre faz-se com muito tempo, com muito amor, dedicação, acompanhamento, e é de facto um trabalho de longos anos de formação, até que a pessoa se sinta verdadeiramente ela própria e a dar frutos a partir do carisma que Deus lhe deu.

Num texto do seu último livro «O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas» diz-nos que uma `igreja tem que estar suja´. É uma metáfora forte!
Nós temos de ser uma Igreja de acolhimento. Uma Igreja que não sinta repulsa pelo mundo, que cheire a rebanho. Às vezes em alguns setores da Igreja, parece que há uma repulsa pelo mundo, pela realidade que as pessoas vivem. Ora, é preciso não ter repulsa, é preciso ser capaz de abraçar. E mesmo na linha dos grandes santos, que eram capazes de beijar um leproso, a Igreja também tem que ser capaz de beijar e abraçar a lepra do homem contemporâneo. A Igreja tem de investir muito no acolhimento. Se me disser: tem solução para os problemas que lhe aparecem na vida pastoral? Não tenho! Consegue resolver os problemas das pessoas? Não consigo! Os problemas são de tal modo complexos que também não vejo como se resolve, e confio absolutamente na Igreja. Mas, agora sei que a Igreja me pede uma coisa. É que ninguém que bata à porta possa dizer que não foi escutado, que não foi ouvido sem julgamentos prévios, que não foi tocado por uma palavra de amor e de confiança que devolva a pessoa a um caminho de esperança. Estou muito consciente do meu papel, confio muito na Igreja e no discernimento da Igreja. Mas que a Igreja nos pede para sermos uma Igreja de acolhimento e não uma Igreja maníaca, de uma pureza ritual, isso para mim é muito claro.

Bebe de muitas fontes, cita muitos autores, de pensamentos e sensibilidades muito diversas. Alguns não-crentes, como Saramago, que se definiu ateu, comunista. Muitos temem que o pensamento católico se deixe contaminar por estas influências. Que diz aos críticos?
Para mim o catolicismo não é uma trincheira. O catolicismo só é pleno no encontro, não é no fechamento. E o catolicismo dá-nos uma vontade e uma capacidade de dialogar. O grande mal da Igreja, como grande tentação, como diz o Papa Francisco, é a auto-referencialidade. É a Igreja sentir-se como uma realidade total, holística, que tem tudo aquilo que precisa, e que pode dispensar completamente a ajuda dos outros. Eu sou um padre muito formado no espírito do Concílio Vaticano II, e naquele método que a encíclica Gaudium Et Spes introduz: a Igreja ouve, a Igreja pergunta ao mundo o que é que ele pensa da Igreja, o que é que ele pensa dele próprio. E depois a Igreja, ouvindo, também diz. Mas a Igreja não faz um monólogo. A Igreja é chamada a ser participante de um diálogo. E isso dá uma atitude completamente diferente. E se nós acreditamos que hoje a grande crise é uma crise antropológica, de como chegar ao coração humano, eu penso que nós chegamos a uma linguagem transversal, a de ir buscar outras vozes, saber citar autores para lá do nosso círculo, para podermos também tocar o homem contemporâneo. Porque hoje o problema muitas vezes da linguagem na Igreja é que é uma linguagem de museu. Perdeu a capacidade de ser a linguagem quotidiana, que toda a gente fala. E torna-se uma linguagem extraordinária, não o ordinário da vida. É preciso ir buscar novas pontes. E, nesse sentido, o diálogo com a literatura, com a cultura, com as artes, traz para a linguagem do anúncio, uma capacidade de ser relevante, de ser legível para o homem contemporâneo, que me parece muito importante. E é este o meu contributo, apenas mais um, e que precisa de ser complementado por outros. Que esse contributo tem alguma validade isso experimento na minha própria vida de padre e nos frutos que tem dado. Mas não tenho a pretensão de que este seja o caminho único.

Mas admite que o Papa Francisco ao escolhê-lo para lhe pregar o Retiro da Quaresma, teve a ver com aquilo que o caracteriza: o seu pensamento, a sua visão renovada e oxigenada da Igreja…

Um retiro é um retiro. É um serviço concreto de ajudar as pessoas a rezar e a colocarem-se diante e Deus. Esse foi o serviço concreto que o Santo Padre me pediu e que eu realizei. De resto, estou na Igreja, sou apenas mais um padre, e coloco-me ao serviço da Igreja. E é apenas isso, não tenho outra pretensão nem projeto. Sou apenas mais um padre num presbitério, a agir, a construir e a tentar fazer aquilo que se pode fazer na fidelidade ao Espírito. Não me quero colocar num pódio. Só temos um Messias, que é Jesus, os outros messias são todos relativizados.

Uma Igreja do acolhimento é também uma Igreja de afeto. Pastoralmente falando, o afetivo é o efetivo. Mas a Igreja parece ter medo dessa dimensão. Como ultrapassar isso?
O afeto é um sacramento. O afeto é o lugar por onde Deus pode entrar no mais profundo do coração do homem. Nós não temos apenas uma verdade para transmitir. Nós temos uma verdade que salva o homem. E que se liga ao bem e que se liga à beleza. Tem de tocar o profundo do homem. E nesse sentido, a teologia da amizade nas nossas comunidades tem de ser uma prática permanente. Porque uma comunidade não é apenas um pronto serviço. Não é apenas um lugar de oferta de ritualidades. É o lugar de construção de vida. E não há construção de vida plena sem a dimensão do afeto, do encontro, da amizade, da relação entre pessoas que precisamos valorizar muito como um potencial de Deus para a missão da própria Igreja.

No site da capela do Rato, onde é capelão, pode ler-se: “Construir pontes que coloquem em diálogo a Fé e o Pensamento, o Sagrado e as Artes, o Hoje e o Futuro, os Crentes e os Não-Crentes.” Isto não é um tipo de proposta pastoral à comunidade que se encontre em sites de paróquias pelo país.
Agradeço muito ter ido buscar esse texto que temos na apresentação pastoral da capela do Rato. A mim preocupa-me muito a questão do anúncio aos não-crentes. Toda a minha vida tem sido uma vida pastoralmente variada. Já fui prior numa paróquia da Madeira, fui capelão e trabalhei na Pastoral Universitária. Depois tenho trabalhado sobretudo no ensino e na gestão da universidade. Trabalhei muitos anos na Pastoral da Cultura, ajudei a fundar o Serviço da Pastoral da Cultura em Portugal, da Conferência Episcopal, e nestas mediações de missão que a Igreja me tem oferecido, um traço permanente no diálogo do mundo da cultura é ter de lidar com uma multidão de não-crentes, e sentir que a palavra do Evangelho tem de se tornar uma palavra audível, uma palavra credível, não apenas para os crentes, mas também para os não-crentes.

Como que um sair dos templos, uma Igreja em saída…
Uma coisa que sinto é que Deus é uma questão para todos. E nesse sentido interessa-me sempre encontrar uma linguagem antropológica, que não reduza o entendimento da mensagem apenas a um grupo de iniciados, mas que essa palavra, pela sua carga antropológica, possa ser entendida quer pelos que estão dentro, quer pelos que estão fora. A Igreja precisa muito de arriscar um primeiro anúncio junto da multidão do mundo.

Uma perspetiva bem missionária?
Sem dúvida. Hoje, a maior religião é a religião dos indiferentes; essa é a maior confissão religiosa: a dos não-crentes.

E que é a grande preocupação do Papa Francisco …
Muito… O sonho missionário de chegar a todos. A Igreja tem de ser missionária e tem de acordar em si o dinamismo missionário.

Como vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa, como é que vê o papel desta na sociedade portuguesa?
A Universidade Católica é uma das grandes obras da Igreja em Portugal. E ela traduz de facto a identidade católica nesta procura da verdade e do conhecimento. A palavra verdade é o lema da própria universidade. Então é um desejo muito grande formar para a busca da verdade, quer no campo do ensino, quer na área da investigação, quer no campo do serviço à comunidade. E nestes 50 anos que a universidade este ano celebra podemos perceber que o impacto da Universidade Católica na sociedade portuguesa é fortíssimo. Basta pensar os milhares e milhares de estudantes, profissionais nas diversas áreas que passaram por esta universidade, e que hoje qualificam a nossa sociedade, não só em termos académicos, de formação, mas também em termos éticos e em termos de uma determinada cultura católica que está presente na nossa sociedade. A mesma coisa com a Faculdade de Teologia, que tem tido uma missão muito grande, porque ela tem formado a grande maioria do clero português, grande parte do episcopado português. Muito do laicado, dos professores de Religião e Moral Católica, se tem ali formado. De facto, é uma sementeira que a universidade, dentro daquilo que é a sua missão, ao longo destas décadas, tem desempenhado. E um dos seus desígnios é tornar sempre mais forte, sempre mais presente, esta sua ligação e este seu serviço à Igreja e às comunidades cristãs. Por isso pedimos às comunidades que amem muito a Universidade Católica e que a sintam como sua.

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