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Opinião
É de aprender?
Texto Opinião | Teresa Carvalho | 31/12/2017 | 09:11
Quem entrava naquela casa, tinha um lugar de visita obrigatória: a cozinha. Lá, havia um abraço afetuoso pronto a aconchegar
Luzia recebia mensagens de todo o lado. A todos, deixava um agradecimento sentido e algo envergonhado por se lembrarem dela. Os seus 82 anos de vida, quase sem rugas, povoaram o seu mundo de amigos. «Amigos» que ela apelidava de «bênção de Deus», porque os sentia como presente de Deus.
Os seus olhos sorriam por dentro – uma alegria que deixa escapar em gargalhadinhas suaves e gestos ternos.

É religiosa numa pequena comunidade, onde é uma das cuidadoras das «irmãs velhinhas», como ela carinhosamente trata as outras religiosas da sua comunidade.
Irmã Luzia diz que nunca fez nada de especial: «só cozinhei e rezei. Ah, e também dei catequese durante alguns anos!»

Contudo, todos sabem o quanto ela é. Na retaguarda, de voz baixa, tranquila, tentando passar despercebida, lá estava a irmã Luzia atarefada, de faces rosadas pelo calor da panela, a provar o tempero do caldo ou a massa dos rissóis. Tudo deveria ficar saboroso. Era o «jeito saboroso de amar»!

Quem entrava naquela casa, tinha um lugar de visita obrigatória: a cozinha. Lá, havia um abraço afetuoso pronto a aconchegar. E mesmo resistindo, não se conseguia escapar a um miminho fresco a que se juntava uma lata de biscoitos amorosamente preparados para levar na bolsa.

Do seu lugar, Luzia rezava em silêncio, ou cantava baixinho. Gostava tanto destas conversas de proximidade com o seu Deus, onde tudo era dito, confiado e apaziguado. Por isso, sempre que podia fazia «publicidade à oração» com uma técnica que nunca falhava: uma pergunta sorrateira que abria caminho para a conversa:
– Então, tens falado muito com Nosso Senhor?

Se tivesse como resposta um «não», logo rematava com uma risadinha lançada com um olhar próprio de quem oferece um bombom:
– Não te esqueças que Ele está à espera da tua conversinha.
E a sua questão ficava por ali – assim, sem forçar, sem julgar, sem instruir. Só tocar à campainha e deixar acontecer, livremente.

Luzia nunca estudara para além da 4ª classe do seu tempo, mas tinha a pedagogia do respeito, do interesse pela pessoa que encontrava, importava-se com ela, queria saber como estava, como vivia. E depois de saber, punha-se em movimento se precisassem dela ou dos seus contactos.

Era pequenina de tamanho, e era assim que se via: não uma «pequenina» por ser «sem valor», mas «pequenina» por ter tanto para crescer. O interessante é que media a todos pela medida grande, deslumbrada com o que eram capazes de fazer, de superar, de sonhar. Talvez por isso, tinha sempre histórias maravilhosas para contar, onde havia sempre pessoas a ocupar lugares de pedestal, por mais humildes que se pudessem considerar.

Irmã Luzia não o fazia por usar lentes cor de rosa. Era mais por usar lentes que iam ao fundo do coração da pessoa que encontrava, e por querer ver mais fundo, via de verdade. O seu desejo de conhecer a pessoa, era capaz de a amar, e sem darem conta, ficavam presas pelo coração.
Como aprendeu isto, a irmã Luzia? Aprendeu certamente com o coração – ou já o trazia consigo desde sempre, talvez! Pois, já o trazia consigo, certamente, tão genuína e natural que era!
Haverá forma de o aprender? Se sim, e se é por aprendizagem, talvez um dia o consiga aprender também!
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