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Opinião
Racismo institucional
Texto Opinião | Albino Brás | 26/08/2017 | 11:09
Jesus preferia as periferias: preferiu Galileia a Jerusalém; publicanos e pecadores frente aos escribas e fariseus; marginalizados e excluídos, frente a acomodados e integrados
«Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar», escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen. Eu continuo a ver manifestações de violência com motivações racistas, a ouvir testemunhos de descriminação e a ler sobre segregação por origem étnica ou racial. Não posso nem quero ignorar. E faço um esforço para me colocar no lugar das vítimas.

Recordo o caso recente da Esquadra da PSP de Alfragide. Um grupo de jovens da Cova da Moura sentiu-se profundamente injustiçado e, com coragem e persistência levou por diante uma queixa contra violências policiais que consideram ter sofrido em 2015 por parte de agentes da PSP daquela esquadra. A acusação – inédita – agora deduzida pelo Ministério Público (MP), indicia
18 agentes por suspeita de agressão a seis jovens daquele bairro social. Os polícias estão a ser acusados de «falsificação de documento agravado, denúncia caluniosa, injúria agravada, ofensa à integridade física qualificada, falsidade de testemunho, tortura e outros tratamentos cruéis, degradantes ou desumanos e sequestro agravado». «Não estamos a lutar só contra 18 polícias, mas contra todo o sistema que perpetuou esta violência», declarou um dos jovens ao Diário de Notícias.

Por enquanto ainda só há acusação, mas as alegadas violações de direitos humanos que constam do despacho do MP indicam que terá sido o ódio racial que esteve na base do comportamento violento por parte da PSP. E, convenhamos, não era suposto que haja instituições (que representam o Estado) com práticas racistas institucionalizadas.

Nos bairros sociais encontramos pobreza, marginalização, guetização. No geral, o negro e o cigano têm dificuldade em encontrar oportunidades, empoderamento, e uma representatividade própria nos mais variados âmbitos da sociedade, mesmo sendo portugueses. Não havendo oportunidades, também não há inclusão, integração. E quem gosta de se sentir excluído? A pobreza e a exclusão extremas podem ser também, por desespero, causas de violência.

Urge combater o racismo institucionalizado e cristalizado na sociedade portuguesa. A cultura do encontro ajuda a conhecer, a não estigmatizar, e a descobrir no outro um como nós. Um irmão. Jesus preferia as periferias: preferiu Galileia a Jerusalém; publicanos e pecadores frente aos escribas e fariseus; marginalizados e excluídos, frente a acomodados e integrados. Que seja a Igreja, hoje, a abraçar esta causa. Sem demora, e com profecia.
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