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Fátima
Centenário das Aparições
Consolar o mundo a partir de Fátima
Texto Juliana Batista | Foto Ana Gonçalves | 12/05/2017 | 17:07
A fábrica de artigos religiosos é apenas uma das estruturas que integra o Complexo dos Missionários da Consolata em Fátima, a primeira congregação religiosa masculina a nascer na Cova da Iria
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Chegou a Portugal aos 29 anos e tornou-se num «dos maiores promotores da Mensagem de Fátima». Entrevistou as testemunhas das aparições, escreveu um dos livros mais difundidos sobre as visões dos pastorinhos e fundou a primeira congregação masculina em Fátima – os Missionários da Consolata – que com um hotel, uma loja e um museu reúnem fundos para os mais pobres, financiando projetos nas missões. João De Marchi foi um homem «completamente dedicado à missão»

Cinco mulheres, com idades compreendidas entre os 42 e os 59 anos, dão cor a milhares de figuras de Nossa Senhora de Fátima. Pintam as imagens com precisão, rapidez e uma perfeição que impressiona quem observa. «Não se pode tremer. Caso contrário não se podem fazer sobrancelhas, nem bocas, nem pestanas», enumerou Dulce Estrela, de 57 anos.

Para onde quer que vão, Dulce, Albina Oliveira, Dulcelina Silva, Idalina Neves e Paula Borralho reconhecem de imediato as imagens que passaram pelas suas mãos, e não hesitam em dizer com orgulho: “As nossas imagens são as mais bonitas!”. “Onde quer que vá, consigo identificar muito bem as imagens que foram feitas por mim e pelas minhas colegas. Sei bem quais são as imagens da Consolata e sinto orgulho pelo trabalho que é aqui feito”, disse Dulcelina Silva, de 58 anos.

Viajar para longe e reconhecer uma figura fruto do seu trabalho já deixou Paula emocionada. “Numa viagem que fiz até à Ilha de São Miguel, nos Açores, deparei-me com uma imagem de Nossa Senhora de Fátima e reconheci de imediato que aquela imagem tinha sido feita no meu local de trabalho. Passou pelas minhas mãos e pelas mãos das minhas colegas. Fiquei tão contente. Gostei mesmo muito”, contou Paula, a mais jovem das funcionárias da fábrica de artigos religiosos dos Missionários da Consolata, instalada em Fátima.

A paixão pelo trabalho que faz, particularmente o de restauro, é tão grande, que a funcionária não encerra os trabalhos que faz nas quatro paredes da oficina. «Fotografo as imagens que vou restaurar porque em casa gosto de mostrar aquilo que faço aqui», disse Paula, exibindo no ecrã do seu telemóvel as figuras danificadas que restaurou.

Todas as imagens que ganham cor naquela fábrica passam pelas mãos das cinco mulheres. O produto final é comentado por todas e a ajuda mútua é uma constante, «para que as imagens fiquem o mais bonitas possível». «Se cada uma de nós não tivesse gosto pelo trabalho que faz, as imagens não saíam tão bem. Estamos sempre a chamar a atenção umas às outras e a dar sugestões para que o resultado seja o melhor», disse Albina Oliveira, de 59 anos. «Acredito que as pessoas compram uma imagem destas por sentirem algo ao vê-la. Uma peça destas é um contributo para a fé delas», considera Idalina Neves, de 53 anos.

Mas antes de muitas figuras chegarem até às mãos destas mulheres, há alguém que lhes dá forma. A escassos metros do local de trabalho destas funcionárias, está o irmão José Afonso, de 80 anos, a lidar com as máquinas que dão rosto e corpo a Nossa Senhora de Fátima. Ora gira os manípulos para a direita, ora para a esquerda, e sob um intenso barulho, lá saem as imagens da mãe de Cristo, que de seguida mergulha na água e que depois separa e apara uma a uma.

«Quem compra nem pensa no trabalho que dá», disse o missionário que há 39 anos passa os seus dias na velha oficina, sozinho, sem se incomodar com a falta de companhia. «Para mim o tempo não conta. Não aguento estar no quarto. Estou aqui todo o dia com o meu anjo da guarda», disse sorridente.

Como tudo começou
A fábrica de artigos religiosos é apenas uma das estruturas que integra o Complexo dos Missionários da Consolata em Fátima – a primeira congregação religiosa masculina que ali se fundou por iniciativa de um jovem padre italiano que aterrou em Portugal em 1943, aos 29 anos. Apenas 16 meses após ter chegado a terras lusas, o sacerdote, de nome João De Marchi, já recebia os primeiros candidatos a missionários e rapidamente se aventurou na compra de um terreno para erguer um edifício para albergar as vocações que surgiam.

Ao memo tempo, interessava-se por tudo o que se relacionava com o fenómeno das aparições. Entrou em contacto com os familiares dos três pastorinhos, perguntou, investigou, estudou os factos do tempo das aparições e interrogou as suas testemunhas qualificadas, incluindo a vidente Lúcia. Além de ter estado em missão no Quénia e na Etiópia e de ter permanecido longos períodos nos Estados Unidos da América (EUA), De Marchi escreveu com afinco sobre Fátima, tornando-se num grande divulgador da mensagem transmitida pelos três pequenos videntes.

O fundador dos Missionários da Consolata em Portugal publicou um dos livros mais vendidos de sempre sobre os acontecimentos da Cova da Iria. Com o título «Era uma Senhora mais brilhante que o sol», esta obra foi traduzida em pelo menos oito línguas, e encontra-se atualmente na sua 26ª edição. Mais tarde, o missionário dirigiu-se às crianças e lançou o livro «Foi aos pastorinhos que a Virgem falou». Morreu em 2003, aos 88 anos.

O padre Aventino Oliveira fez parte do primeiro grupo de seminaristas formados pelo padre João De Marchi. É um profundo conhecedor da sua figura e do seu papel na difusão da Mensagem de Fátima, sobretudo nos EUA. Aos 84 anos, Aventino recorda com grande admiração aquele que o recebeu e formou. «Chegou a Portugal sem saber falar português», mas desejava «escrever um livro sobre Fátima» e andava numa velha bicicleta pela região a fazer a recolha dos testemunhos. «Foi um dos maiores promotores da Mensagem de Fátima» e escreveu um «livro traduzido em tantas línguas e com tantas edições”, que «nem é preciso dizer mais nada».

Aventino relembra que João De Marchi “era um homem simples”, que «sempre se adaptou a falar com uma simplicidade fantástica… Ele que era um homem tão inteligente». «De Marchi fazia tudo. Quando chegou aos EUA percebeu logo a mentalidade deles. Organizou o trabalho para criar cinco curtas-metragens sobre África e uma sobre Fátima», destacou o sacerdote.

O missionário português conta com saudade que De Marchi «nunca teve nada próprio, nunca teve férias e não teve praticamente nada no seu quarto durante toda a sua vida». As pessoas «viam que ele era um homem que não tinha nada seu, que era completamente dedicado à missão, especialmente à missão entre os mais pobres». Ainda hoje, o missionário lembra com carinho uma das frases do italiano: «Nós, missionários, somos para os pobres, por isso não devemos ter nada próprio».

Aventino Oliveira relembra que De Marchi tinha uma «devoção extraordinária a Nossa Senhora de Fátima», que o levou a fazer um contrato com a mãe de Cristo, quando se encontrava em África. Disse De Marchi na altura: «Quando eu já não puder trabalhar nas missões, tu fazes-me cego e assim eu vou para Fátima e passo os últimos anos no confessionário».

Além da fábrica de artigos religiosos e do seminário, o Complexo dos Missionários da Consolata em Fátima integra outras estruturas. No ano do cinquentenário das aparições, entrou em funcionamento o Hotel Pax (agora Consolata Hotel) para dar hospitalidade aos peregrinos que se deslocam à Cova da Iria.
Em 1991, nasceu o Consolata Museu – Arte Sacra e Etnologia, com uma coleção de objetos de arte sacra e de carácter etnográfico dos vários países de missão onde os missionários da Consolata trabalham.

Há ainda espaço para a Consolata Loja, o Centro Missionário Allamano, o Pavilhão Multiusos Padre Manuel Carreira e as Camaratas Padre José Pequito. Apesar de diferentes, cada um destes espaços, com as suas distintas valências, contribui para alertar e sensibilizar para a pobreza em que milhões de pessoas vivem em todo o mundo, e reunir fundos para as ajudar, construindo um mundo melhor.
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