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Testemunho
«Todas as semanas aparecem novos grupos armados»
Texto Francisco Pedro | Foto Ana Paula | 13/02/2017 | 07:04
A viver na República Democrática do Congo há mais de duas décadas, Rinaldo Do temeu pela vida quando a missão onde trabalhava foi atacada por um grupo armado. Do que havia, restou apenas uma bicicleta, que serviu para continuar o trabalho pastoral
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O momento mais marcante da vida missionária de Rinaldo Do, agora com 60 anos, aconteceu no auge do conflito no Sudão, que daria origem à criação do Sudão do Sul. Os grupos armados entraram da República Democrática do Congo (RDC) e não pouparam nem as missões religiosas. A dos Missionários da Consolata, em Doruma, foi totalmente saqueada e o sacerdote, temendo pela vida, refugiou-se na floresta.

Quando regressou à missão, encontrou apenas uma bicicleta, que os guerrilheiros não tinham levado porque estava escondida. E foi com esse meio de transporte que prosseguiu o trabalho pastoral e vislumbrou uma nova dimensão da importância da Igreja no acompanhamento aos mais vulneráveis. «Foi um dos períodos mais duros na minha vida, mas ao mesmo tempo um dos mais bonitos, que me deu muita força para continuar. Eu não tinha nada para dar, para além da palavra de Deus, mas as pessoas viam que a Igreja estava ali”, recordou o missionário.

Rinaldo Do chegou pela primeira vez à RDC em 1991, para trabalhar na paróquia de Saint Mukasa, na periferia de Kinshasa. Depois foi para a missão de Doruma, junto à fronteira com o Sudão do Sul, e daí para Isiro. Atualmente, é pároco em Neisu, uma região com 87 povoações. O povoado mais distante fica a cerca de 80 quilómetros e a pelo menos dois deles só se consegue chegar após duas horas a pé pela floresta, por falta de acessos que permitam usar a moto ou a bicicleta.

Em todos estes anos, o missionário assistiu a muitas mudanças no país. Desde a nacionalização decretada pelo Presidente Mobutu Seko à recente tentativa de Joseph Kabila de alterar a Constituição, para se manter no poder. E o que mais o entristece é ver que, apesar das alterações políticas e da riqueza do país, continuam a faltar muitas infraestruturas e perspetivas de futuro para a população, sobretudo para os mais jovens.

«Antes, havia fábricas de café, de óleo de palma e algodão, mas foi tudo abandonado depois da nacionalização. Agora, há jovens que estudam, mas o que vão fazer se não há onde trabalhar?», interroga Rinaldo Do, revelando que esta situação leva também a que muitos menores abandonem a escola para ir trabalhar nas minas de ouro e diamantes, onde nem sempre são tratados da forma mais digna.

Em suma, para o missionário italiano, o que faz falta na RDC é «despertar o povo» e ter alguém à frente do país com sabedoria e preocupação com o bem comum. «Ainda há muita corrupção e todas as semanas aparecem novos grupos armados, sobretudo na zona de Bukavu, onde há muito coltan (minério usado nos equipamentos eletrónicos), ouro e diamantes. Mas o país é rico e se houver uma pessoa sábia que queira bem ao seu povo, tudo pode mudar».
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