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Domingo a Domingo
Comentário ao Evangelho do Quarto Domingo Comum - 29 de janeiro
Grande será a vossa recompensa
Texto Comentário | Aventino Oliveira | 28/01/2017 | 16:24
A maior parte sentia uma grande curiosidade em ouvi-lo. Um pequeno grupo amava-o perdidamente e tinha mesmo apostado tudo nele. Ele levantou-se, elegante, olhos sonhadores. Um silêncio profundo cobriu a colina. Então ele falou
O chefe estava ali, acompanhado de centenas de pessoas reunidas à sua volta. Na pista prateada do lago espalhava-se a luz intensa do sol da Galileia. Na colina onde se encontravam abundava a erva fofa sobre a qual se sentavam. Era primavera. 

De há tempos que o nome dele ecoava em todos os ouvidos daquelas zonas. Alguns odiavam-no por ser moderno demais, aquele Jesus. Outros, porque se interessava mais pelos pobres do que pelos ricos. A maior parte sentia uma grande curiosidade em ouvi-lo. Um pequeno grupo amava-o perdidamente e tinha mesmo apostado tudo nele. Ele levantou-se, elegante, olhos sonhadores. Um silêncio profundo cobriu a colina. Então ele falou. 
- Felizes as pobres que o são no seu íntimo: deles é o Reino dos Céus. 
Um escriba esguinhaçou: “Felizes os pobres? Grande treta! Felizes mas é os ricos.” A maior parte da gente sorriu. Eram pobres, identificavam-se. 
- Felizes as que choram, porque serão consolados. 
Agora, eram as Herodianos que riam: “Felizes as que choram? Grande aldrabice! Felizes mas é os que gozam os prazeres da vida”. 
Uma pobre mãe viúva sentiu na alma o bálsamo de Iavé a enxugar-lhe as lágrimas causadas por uma vida de humilhações. 
- Felizes as humildes porque hão de possuir a Terra coma herança. 
Um sacerdote da Lei arreganhou a fateixa. “Que descoco”. “Felizes mas é os grandes, que possuem casas esplendorosas, dão festas sumptuosas, recebem salários chorudos, têm amigos entre os políticos e imperam sobre os outros a torto e a direito porque têm contas recheadas nos bancos”. 
Um grupo de pedintes sorriu serenamente ao pensar na hipótese de virem a possuir a Terra prometida pelo Senhor. 

O Filho do Carpinteiro de Nazaré, como ele era conhecido pela maior parte, espraiou os olhos pelos presentes e continuou: 
- Felizes as que têm fome e sede de justiça porque serão saciados. Alguns homens da política e outras dos setores da justiça e da ordem riram de forma a debulhar a pinha. “Justiça? Pobre saloio que fala de justiça. A justiça é para os inocentes, e no mundo de hoje os inocentes não valem um chavo, nem nunca valeram”.
Alguns homens bronzeadas do sol, calejados par tanto trabalho duro, sorriram ao verem que o Mestre pensava neles a quem os abastados pagavam salários de fome. Um velho abandonado chorava ao ouvir a promessa, pois nenhum juiz lhe quisera jamais fazer justiça contra os grandes. 
- Felizes os misericordiosos, porque hão de alcançar misericórdia. “Qual misericórdia qual carapuça!”, disseram alguns reforçadores das leis. “A misericórdia, à cacetada é que se aplica, pois não!” 
“Como Deus é bom”, pensaram vários castigados pela lei, eles a quem tinham feito pagar, com juros e aumentos, as asneiras cometidas na juventude. “Agora”, pensavam, “o Deus dos Céus prometia misericórdia e perdão. Bem haja o Profeta”. 
- Felizes as puros de coração, porque hão de ver a Deus. 
- “Credo!”, disseram escarrando enojados alguns dos mais graúdos da zona. “A pureza. Que indecência!” 

A duas jovens de vida duvidosa começou o coração a verter lágrimas de comoção. Há tanto queriam abandonar aquela vida humilhante, mas ninguém para elas olhava sequer, além dos seus exploradores e dos fracos. Agora, prometia o Profeta, poderiam refazer o seu coração e a sua vida, e fixar os olhos no Deus de toda a pureza. 
- Felizes os obreiros da Paz, porque hão de chamar-se filhos de Deus. 
Um comandante do exército explodiu em gargalhadas. “A paz!”, grunhiu ele. “Durante os tempos de guerra é que se fazem negócios. Guerra e guerrilhas dão trabalho a muita gente. “A paz. Que azelhudice!” De acordo estavam também os vários candongueiros presentes. 
Muitas almas simples sentiram como que um rio de serenidade e alegria a inundar-lhes o espírito. 
- Felizes os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 
“Esta é de cabo de esquadra”, riram uns grandalhões ali perto. “Os que querem que haja justiça são uns atrasados mentais. Cada um arranja-se como pode. Isto da vida é uma corrida para o lucro, não há lei que valha. O que é preciso é olho vivo e pé ligeiro 

Um jovem, sereno, afagou as marcas ainda dolorosas deixadas por uma flagelação sofrida por defender a Lei de Deus. Fechou os olhos e saboreou as palavras divinas do Profeta. 
- Felizes sereis quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, vos acusarem de toda a espécie de mal. 
O sol declinava na esteira dourada do lago. Muitos corações exultavam de emoção ao ouvirem as novas leis promulgadas por Jesus de Nazaré. Ele não falava só para eles, mas para todos os crentes de toda a história. Através dos séculos, um coro imenso de corações feridos pelos abusos de perseguidores regozija-se por ter recebido na alma a promessa do Messias, o Filho do Deus Todo-Amor. 
- Alegrai-vos e exultai, pois grande será a vossa recompensa nos Céus, terminou ele. E esta é Palavra de Salvação. Graças a Deus!
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