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Uma casa chamada Bambaran
Texto Francisco Pedro | Foto Francisco Pedro | 14/02/2015 | 09:14
«É um fenómemo da cultura guineense. Se a criança nasce com paralisia, a família considera-a como Irã, um ser maligno que amaldiçoa toda a família e arrasta muita maldição»
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Em crioulo, Bambaran é o nome que se dá ao pano usado pelas mães para carregarem os filhos às costas. Por simbolizar o aconchego, foi também este o nome escolhido para a Casa de Acolhimento da Diocese de Bissau. Com capacidade para 200 menores orfãos, portadores de deficiência, mas sobretudo os rejeitados pelo estigma das tradições, o edifício, situado em Bor, nos arredores de Bissau, acolhe neste momento 53 crianças dos zero aos 14 anos.

Nas divisões, de paredes nuas, vazias de conforto, as crianças – as que se podem movimentar – correm curiosas com a presença de estranhos. Parece que mendigam um sorriso, uma palavra, um abraço. Tocam, puxam, e não desistem, até terem um minuto de atenção. Parecem felizes com tão pouco. Na realidade, além do sorriso permanente das religiosas e das voluntárias, dos cuidados básicos de higiene e alimentação, da educação e de alguma atenção, a pouco mais têm acesso.

As que estão privadas de autonomia, limitam-se a seguir os nossos movimentos, com um olhar atento e penetrante, enquanto esperam por uma malga de leite, ‘enriquecida’ com pequenos pedaços de pão. Quase nem vale a pena perguntar a história de cada uma. Elas convergem quase todas para o mesmo enredo, o mesmo drama, o mesmo motivo. Só mudam as personagens. Estamos a falar de bebés de meses, de meninos e meninas de um, dois, três, quatro ou cinco anos. Pessoas de carne e osso, pequenos seres humanos, com personalidade própria, que escaparam à morte. Literalmente. Isto num país que ratificou a Convenção dos Direitos da Criança das Nações Unidas.

São vítimas de uma tradição que mina o interior rural da Guiné-Bissau e sobrevive ainda nos arredores das grandes cidades. Uma tradição que todos conhecem, e que a maioria continua a tolerar. «É um fenómemo da cultura guineense. Se a criança nasce com paralisia, a família considera-a como Irã, um ser maligno que amaldiçoa toda a família e arrasta muita maldição. Essas crianças são rejeitadas e muitas vezes assassinadas pelos próprios  familiares», esclarece Eurizanda Dias, religiosa da comunidade de Santa Mariana de Jesus e responsável pela Casa Bambaran.

A funcionar nas antigas instalações do histórico Internato de Bor, encerrado pela guerra de outros tempos, este centro de acolhimento, inaugurado em 2011, alimenta-se sobretudo da boa vontade do exterior, conforme explica Giusi Digirolamo, 59 anos, vice-ecónoma da diocese de Bissau: «Temos um projeto com a União Europeia que ajuda com o salário das trabalhadoras, que acaba em julho. As dificuldades são muitas, porque dependemos da ajuda dos benfeitores. Mas para nós a providência existe, porque sempre que estamos em dificuldade, acontece alguma coisa e há mais um benfeitor que nos ajuda».

Para a italiana, que se mudou para Bissau depois de ficar viúva,  e de sentir o apelo das causas humanitárias, a Casa Bambaran «é um bom exemplo, para mostrar que as crianças Irã, são crianças que nasceram com pouca sorte, mas que podem ser amadas». «Fizemos uma campanha de sensibilização em todo o país, através dos centros nutricionais, e sempre que as religiosas se apercebem que os pais querem matar um filho, encaminham-no para o centro de acolhimento. É a forma que temos para salvar essas crianças».
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