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Cantinas sociais provocam «dependência»
Texto Juliana Batista | Foto Lusa | 09/05/2014 | 17:34
As refeições fornecidas às pessoas carenciadas pelas cantinas sociais «não resolvem os problemas e trazem dependência», afirma Vasco Almeida, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra
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As cantinas sociais, vistas como um «modelo de inovação social», podem favorecer a desigualdade e a exclusão social, alerta um estudo tornado público esta sexta-feira, 9 de maio, em Lisboa. Através de uma «metodologia qualitativa» e baseada em entrevistas a funcionários das Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), a investigação, da responsabilidade de Vasco Almeida, do Instituto Superior Miguel Torga/Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, alerta para variados aspetos negativos das cantinas.

Atualmente existem mais de 800 cantinas, que, entre janeiro e outubro, serviram mais de 14 milhões de refeições. Contudo, o investigador vê esta ação solidária com desconfiança uma vez que a considera «um ato isolado, que não vai resolver a pobreza nem contribui para a capacitação das pessoas». É «uma medida temporária, com um destino incerto» e todas as pessoas com quem falei me dizem que se está a ir para onde não se devia, que é «dar o peixe em vez de ensinar a pescar», afirmou, em declarações à agência Lusa.

Para Vasco Almeida, as cantinas sociais «não resolvem os problemas e trazem dependência». «As cantinas foram anunciadas como um modelo de inovação social. Mas se olharmos para o conceito mais comum pressupõe-se que na inovação social haja capacitação do indivíduo, o que não acontece», referiu. O autor do estudo também reconhece mais-valias na medida como a possibilidade de alimentar muitas pessoas. No entanto, salienta que tal iniciativa não é englobante, porque existem listas de espera.

«Há zonas interiores onde não há qualquer IPSS, depois nem sempre as cantinas chegam a quem precisa, depois quem recebe outro tipo de ajuda, como do Banco Alimentar, não tem acesso, sendo que são pontuais as ajudas do Banco», apontou. Além disso, o responsável recorda que o governo paga a cada IPSS 2,5 euros por refeição e afirma que haverá instituições que não se guiam por uma ação solidária mas que poderão estar a ver nesta contribuição «uma forma de arranjar um suplemente financeiro».

O investigador não desconsidera o trabalho das IPSS mas realça que o Estado deve de ser «um financiador e também um regulador». Este estudo será apresentado durante uma conferência sobre Estado Social no contexto de crise, que durante dois dias junta no Instituto Superior de Economia e Gestão dezenas de académicos de mais de uma dúzia de países.

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